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sábado, 3 de julho de 2010

“Me used to be angry young man…” ?, por Marina Paula



Pompa. Polidez. Disciplina. Reverência. São estas algumas das palavras que nossos conhecimentos sobre certas figuras e produtos ingleses nos fazem mais facilmente vincular aos costumes daquele país. No entanto, não é preciso ir muito longe para encontrar uma quebra com este sentimento de nação imaculada e hegemônica. É exatamente o que se vê quando um cineasta decide confrontar, usando imagens de uma tonalidade realista, o peso da tradição e da rigidez com a força de uma juventude contestadora, que começava, cada vez mais, a ganhar voz e corpo ao redor do mundo; É o que faz A solidão da corrida sem fim, filme de 1963, dirigido por um dos pioneiros da “nova onda” britânica.

Se o formato de uma leva de filmes de caráter inquestionavelmente institucionais ganhara seu lugar nos pátios e salas de aula das escolas inglesas, o filme de Tony Richardson não vai se utilizar de um espaço muito diferente para questionar os mesmos valores da moral britânica outrora festejados em cenários como o de Adeus, Mr. Chips (1939). Para tanto, em vez do colégio interno, o cenário é deslocado para uma casa de ressocialização, onde o papel dos alunos é ocupado por uma horda de jovens irados, vindos, em sua esmagadora maioria, da classe operária e que por necessidade ou rebeldia (que no filme, parecem até indissociáveis) acabaram se envolvendo com a criminalidade.

No reformatório Ruxton Towers, o foco está sobre Colin Smith (Tom Courtenay), o mais velho de uma família inglesa de quatro filhos, preso por roubar uma padaria. Apesar de assumir uma postura subversiva, a figura de Colin não invoca ares de total irresponsabilidade, como poderia parecer. Ao contrário, suas ações parecem sempre extremamente conscientes e jamais são questionadas por qualquer tipo de arrependimento ou “moral cristã”. O personagem assume a postura de quem tem o direito, quase o dever, de praticar tais ações – uma espécie de Robin Hood moderno – na própria cidade de Nottingham, berço da lenda –, mas sem a parte da distribuição dos bens ao fim (o que poderia até ser justificável se usássemos como argumento que ele mesmo é um necessitado).

Assistimos, então, a chegada de Colin ao reformatório e o seu processo de adaptação naquele ambiente. Após os primeiros encontrões com a direção, ele começa a aceitar e a se envolver cada vez mais no cotidiano da prisão. A habilidade para o roubo, segundo o próprio personagem, já era havia muito repassada de pai para filho, sendo o costume de correr da polícia o que mais tarde viria lhe possibilitar uma chance de mudar de vida. É através de uma narrativa não-linear que vamos conhecendo a sua vida anterior.

Mesmo após a morte do pai, quando teoricamente deveria assumir o posto de chefe da família, Colin recusa-se a procurar um emprego por não aceitar desperdiçar o seu suor apenas para a prosperidade dos patrões.

Exatamente por essa insubordinação e fortes tendências comunistas não só do protagonista, mas do discurso do filme em sua totalidade, ele recebe o subtítulo “Rebel with a cause”, indo propositalmente de encontro ao título original do clássico americano, Juventude Transviada (Rebel without a cause, 1955), transformando-o assim, em um exímio representante do que de melhor a postura de seu protagonista, um autêntico “angry young man” poderia nos oferecer, um culto à rebeldia.

domingo, 30 de maio de 2010

"Antes da revolução", por Filipe Marcena


No alegórico If..., do diretor Lindsay Anderson, a protagonista é College House,
uma típica escola britânica para meninos que serve cenário para os personagens. Como Mick Travis (Malcom McDowell, antes de estourar com Laranja Mecânica) que, assim como seus colegas, está voltando para as aulas após férias. Com um denso bigode, reflexo de sua ainda pueril rebeldia, Mick detesta o ambiente escolar. A College House funciona como uma ditadura, onde a obediência e a disciplina andam sorrateiras pelos corredores à procura de um infrator. O diretor escolhe alunos Seniores para ajudar no controle dos alunos Junior, utilizando métodos violentos de repreensão. Mick também acredita na violência, mas tem uma concepção própria, idealizada sobre o assunto. O choque entre opressão e rebeldia atinge o estopim quando Mick e seus amigos são penalizados por beber na escola.


Inspirado em Zero de Conduta de Jean Vigo, If..., que apesar de fazer parte no divisor ano de 68 e de ter absorvido as influências da contracultura, foi filmado meses antes do evento mais significativo do movimento, as revoltas estudantis em maio daquele ano. O filme de Anderson capturou o espírito jovem em voga quase fez um presságio dos atos rebeldes que aconteceram logo em seguida, e ainda soam controversos se pensarmos nos famigerados casos de alunos invadindo suas escolas com metralhadoras. Teorias defendidas à parte, If... é de um apuro técnico primoroso. Anderson trabalha sobre uma atmosfera repressora, com os imponentes cenários da escola representando não só uma instituição de ensino de método rígido, mas quase um presídio. Tanto que na única sequência onde dois personagens saem para a rua, o filme se desprende da narrativa e se desenrola livre e imprevisível, exibindo a mesma sensação de liberdade dos protagonistas. As tomadas em preto-e-branco, tão questionadas na época, foram uma escolha técnica resultante de um defeito de iluminação, e que acabou se tornando um estilo. E o filme ainda evita trilhas sonoras, utilizando-se apenas de canções de coral de garotos nas cartelas que dividem a narrativa em capítulos, o que acrescenta na atmosfera alegórica.

If... foi um sucesso surpresa de bilheteria, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e influenciou uma geração, o que serviu como mais uma prova de seu acerto na representação do zeitgeist de 68, para a surpresa da Paramount, que investiu pesado no fiasco Barbarella no lugar do filme de Anderson. Trunfo de um filme que sobre transportar o macro para o micro de forma audaciosa, ressonante e até mesmo fantástica, especialmente em seu final de abordagem quase surrealista, cheio de fúria. Um clímax horripilante que encerra o filme de maneira assustadoramente profética. Na época, muitos protestaram contra a violência de If..., colocando-a em questão algo incitador. Engraçado como o filme parece ser um contra-argumento em si mesmo, especialmente por causa de seu intrigante e desafiador título.
Um dos filmes mais importantes da new-wave britânica.

"Beber, cair, levantar; Beber, cair, levantar; Beber cair levantar", por Victor Laet


“Tudo começou no sábado” começa numa sexta-feira. Uma sexta-feira maçante marcada pela feitura de peças industriais, pela repetição mundana e massiva de um trabalho inerte, estéril, o qual tende a reificar seus atuantes, deixando-os num estado de indiferença quanto ao futuro e um morno gosto a um conformismo industrial. Palavras e pensamentos chatos, não? É só para enfatizar a quão tediosa a sexta-feira é mostrada.

Ao tratar de assuntos como marasmo na vida, a inércia, a falta de vontade, o longa do radicado britânico Karel Reisz se mostra um surpreendente filme – e as surpresas já começam no título: “Saturday night, Sunday morning” não é a duração da história no filme, mas o espírito dos anos ingleses chefiados por Macmillan e Home. Uma soma de espíritos conformados do pós-guerra com espíritos influenciados pelo eco das frases cínicas ditas por Bogart e os bordões encourados de Brando.

Por vezes o roteiro (assim como o livro, ambos assinados pelo recém-finado Alan Sillitoe) parece atacar impiedosamente a mediocridade. O que para uns é visto como uma vida simples, neste filme cinza é apontado como uma vida medíocre. Uma mediocridade germinada num pós-guerra que plantou um contentamento conformista nos homens: vindos dos anos da guerra, sem empregos, a então juventude se satisfez com o fato de estar trabalhando, deixando de lado almejos e adotando uma filosofia de predestinação mecânica. A vida não era boa, mas não havia porque reclamar: todos estavam empregados; era isso o que importava. Assim a idéia de ‘aqui estamos, daqui não saímos’ influencia a cabeça da juventude sucessora, impossibilitando-a a querer sair daquele cotidiano. Não fica muito difícil, então, levantar a bandeira do “I'm out for a good time - all the rest is propaganda!” (1) – como assim faz o protagonista.

Arthur, interpretado por Albert Finney, trabalha somente para poder desfrutar de roupas caras, falso status, alcoolismo e relações adúlteras. A trama tem seu ponta-pé ao revelar uma disputa de bebedeira num bar. Mostrado é o jovem Arthur com sua personalidade nervosa, esnobe e alcoolizada. A presença do álcool nos primeiros minutos do filme acaba sendo mais do que divertida, pois serve como apoio para uma sugestiva visão social daquela juventude inglesa: “Saturday night” seria todo o aspecto da maravilha, ebriedade, entorpecência, êxtase causados graças aos coeficientes do etanol, enquanto “Sunday morning” serviria como a ressaca, a consciência, o enxergar dos problemas – a mudança parece não ocorrer porque o sábado (Saturday) sempre precede o domingo (Sunday)(2).

As duas personagens principais do filme são vividas por Shirley Anne Field e Rachel Roberts, respectivamente Doreen e Brenda. Doreen é solteira e representa outro ponto a ser criticado pelos realizadores britânico neste filme: partindo de uma idéia de personagens de proletário (todavia sem adotar uma ideologia comunista(3) ), as mulheres desse proletário, como Doreen, tem suas aspirações moldadas pela comunidade a qual pertence, fazendo com que estas não ultrapassem o viés de casar-se com um homem trabalhador, ter uma casa e estagnar (esse é o verbo chave, pois durante a ‘trilha evolutiva’ dos jovens no filme, todo o querer de futuro nunca leva a uma de idéia de estabilizar e sim a estagnar-se na vida e aceitá-la) reconhecendo seu papel de submissa e tendo uma vida de dependência do marido. Sabido isso, Brenda pode ser vista como a evolução de Doreen. Brenda é casada e traí o marido com Arthur, uma traição fundamentada apenas na ociosidade de dona de casa onde os problemas conjugais são, não inexistentes, todavia pífios. Não obstante, engravida do amante numa época onde métodos anticoncepcionais e aborto eram ilegais(4).

Talvez a sequência mais impactante do filme se dê minutos pertos do término do filme. Dias antes, Arthur escuta da tia Ada (Hylda Baker) que chega uma hora na qual todo homem deve enfrentar a realidade, tomar as rédeas de quaisquer situações. Ao se deparar encurralado em um brinquedo giratório num parque de diversões, a subjetiva revela imagens distorcidas, movimentadas muito rapidamente, o que intensifica o receio do personagem. A inércia (que se mostra durante todo o longa-metragem social e a qual ele despreza, mas abraça ao mesmo tempo) deseja ejetá-lo do passeio para que assim, ele possa enfrentar seus erros. Não porque ele precisa tornar-se homem e largar a rebeldia sem causa juvenil, mas só porque, simplesmente, a inércia funciona assim, logo, a vida é assim.

Karel Reisz cinematografou não somente uma forte crítica assim como Allan Sillitoe não apenas roteirizou um brilhante livro. A importância de “Saturday night, Sunday morning” se desprende de prováveis listas de “os 1234567890 filmes que você tem de ver” ou de influenciar a cultura pop-alternativa dos anos 70, 80 e início do século XXI. Somente a idéia de tratar o sábado à noite como apogeu e domingo de manhã como queda valeria, mas não, eles vão além ao brindar público e crítica com uma trama tão verdadeira.

Victor Laet
Sete de maio de 2010

e como diriam o arctic monkeys no seu mais do que (por este mesmo filme) influenciado primeiro álbum: “last night what we talked about, it made so much sense; but now that the haze has ascended, it don’t make no sense anymore.” (5)


NOTAS:
1. “Arthur: I'll have a fag in a bit, no use working every minute God sends. I could get through it in half the time if I worked like a bull, but they'd only slash my wages so they can get stuffed! I'm out for a good time - all the rest is propaganda!”


2. Talvez esse site dê uma melhor idéia da ‘tese’: http://picnic-land.com/2009/04/saturday-night-and-sunday-morning.html

3. Uma característica presente desde os primórdios do cinema britânico: mostrar o coletivo, os trabalhadores – seja por ficção ou não – mas sem aderir à ideologia esquerdista.

4. “Aunt Ada: It's not right is it, I think men get away with murder.
Brenda: They do, don't they?”
5. “From Ritz to the Rubble”, Arctic Monkeys, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, Domino Records, Inglaterra, 2006

sábado, 29 de maio de 2010

"Rapadura também é doce, mas não é mel!", por João Roberto Cintra


Mãe e filha que se detestam. Flerte entre uma menina (branca) e um marinheiro (negro). Aberta discussão sobre homossexualidade. Tudo isso em um filme feito há quase 50 anos! Como uma obra com todos esses elementos pode se chamar “Um gosto de mel”?

Dirigido por Tony Richardson, e baseado numa peça de Shelagh Delaney (que co-assina o roteiro), o filme é um primoroso exemplar dos “dramas de pia e cozinha” que retratavam o universo da classe operária inglesa, tema de vários outros filmes dessa época. Em especial o filme traz uma mulher como protagonista (mais uma ousadia), colocando esse universo feminino (tão sagrado em épocas anteriores por donas-de-casa compassivas) mais realista, ordinário – e até cruel.

Jo (Rita Tushingham) é uma adolescente pouco graciosa e até deslocada. Aparece logo no início do filme lavando o rosto, olhando-se no espelho, desajeitada e infantil. Mora só com sua mãe, Helen (Dora Bryan), que não vive exatamente como seu papel social designaria: mãe solteira, chegada a bebida e festas, por vezes promíscua, parece viver a adolescência tardia e não sente responsabilidade pela filha. Em resumo, Helen seria aquela colega de classe de que toda mãe imediatamente mandaria a filha se afastar quando a conhecesse. Ora Jo vive seu momento: como meninas da sua idade, diverte-se na escola e tem seus namoricos – é quando conhece o marinheiro negro (Paul Danquash) – um escândalo que ela parece não se importar – e com ele passa uma noite. Ora ela entra em conflito com a mãe rebelde, numa inversão de papeis. Os diálogos entre as duas são realistas ao ponto de se tornarem cruéis – ou amargas – saídas da boca de uma mãe, cândida figura da cultura cristã ocidental.

Jogada no mundo por Helen (que se casa e não leva a filha consigo), Jo conhece Geoffrey (Murray Melvin), com quem passa a morar – que logo se torna seu heroi, a segurança que nunca conheceu antes. Poderia ser o galã... se não fosse gay. E é surpreendente a aparição de um personagem homossexual nessa época, com tanto destaque e tendo sua sexualidade tratada de forma tão aberta – mesmo que seja para ouvir palavras maldosas da matriarca e seu marido da vez. Verdadeiro salvador de Jo, quem a tira de seu mundo ordinário e põe um pouco de sabor em sua vida, e com a qual se importa de verdade, é posto para fora de casa com o retorno de Helen, após o fracasso de mais um casamento, levando a doçura que Jo e o bebê que esperava poderiam experimentar. Pobre Jo. Involuntariamente grávida, seria mãe sem saber a quem copiar – a não ser a mãe solteira que teve, com quem nunca soube lidar.

Todos os personagens, tão carentes, mas sem saber como agir com o outro, se atraem por essa ânsia de contato, mas se repelem pelo gosto agridoce do sentimento, que só os pequenos gostam sem procurar entender – como uma sobremesa antes do jantar. Talvez isso explique a recorrência de crianças brincando ao longo do filme, além do tema musical infantil usado. Ou mais que isso. Do começo ao fim do filme, mesmo com todas as experiências e turbulência, há um tom infantil na figura de Jô, boca semiaberta, indagando o mundo – como na imagem congelada do menino Doinel, no final de “Os incompreendidos”, de Truffaut. Doinel e Jo. Infância pouco tranqüila e com adolescência interrompida por uma maturidade precoce, desorientada e indesejada. Rapadura também é doce, mas não é mel.

"Doce na boca, amargo nas entranhas", por Luciano Monteiro


Imagine um leve melodrama onde a atriz principal é linda, bem resolvida, tentando vencer na vida e que o único grande obstáculo para sua felicidade é sua mãe, egoísta e de postura infantil. Imagine agora que o melhor amigo dessa protagonista é um jovem belo, másculo e charmoso, capaz de arrancar suspiros de espectadoras juvenis ao redor do mundo. Pode ter certeza que este não é o caso. Em A Taste of Honey (Um Gosto de Mel, de Tony Richardson, 1962) tudo está pelo avesso, para nossa felicidade.


Aqui não temos uma bela atriz interpretando a personagem principal. Os personagens são perdidos, infantis e confusos. A abordagem é realista, dura, desconcertante, amarga refletindo bem o jovem cinema britânico da época. No filme de Richardson o angry young man dá vez ao feminismo e ao homossexualismo dos personagens principais, fato que atesta o porquê que a cultura pop britânica é uma das mais importantes e influentes da época. A obra é fruto de uma época de contestação com um porquê, com um motivo. Beatles, vanguarda, Swinging London, Stones, minissaia, emancipação feminina, juventude. O caldeirão da invasão britânica, impulsionada pela rebeldia própria da adolescência misturada a uma boa dose de boa formação artística das art schools britânicas dos anos cinqüenta, criadas pelo governo britânico para dar aos jovens algo útil para fazer, já que o mesmo governo não conseguira na época reconstruir suas universidades vitimadas pela Segunda Grande Guerra, tudo isso deu o tom e um toque de particularidade da invasão inglesa ocorrida nos anos sessenta, mas que encontra ecos até nos dia de hoje.


A Taste of Honey, que originalmente trata-se de uma peça de teatro, desenrola-se como, na verdade, uma singela fábula infantil e com leves toques do famoso humor britânico. A constante presença de crianças reforça um tom otimista, assim como a infantilidade e inconstância dos personagens. Nas entrelinhas, entretanto, o tom duro e sarcástico dos diálogos dialogam num contraponto perfeito a essa infantilidade. Os personagens são icônicos da nossa época e servem de metáfora a tudo aquilo que os jovens cineastas, como o próprio Richardson, queriam dizer. Jimmy, o amante negro da personagem principal, Helen, já nos mostra o quanto o filme é à frente de sua época e a gravidez solitária também da mesma personagem profetiza a quebra de tabus existentes até o tempo recente. Goeffrey, o doce amigo gay da personagem principal é carismático, doce e, por assim dizer, perfeito, idealizado com o claro intuito de quebrar as barreiras do preconceito. O marido da mãe de Helen é chato, bêbado, preconceituoso. Um curioso, personagem que simboliza o angry old man. Uma música instrumental homônima fora criada para a peça, mas que infelizmente não aparece no filme chegou a ser gravada pelos Beatles, porém Lennon e McCartney adicionaram uma letra, o que nos revela a popularidade da peça e do filme. E mais tarde o próprio McCartney compôs uma música inspirada em uma das canções da peça, Your Mother Should Know. É incontestável, portanto o quando este pequeno grande filme de Richardson é admirado, amado e estimado pela cultura britânica. Um filme que fica cada vez mais jovem com tempo. Mais jovem e mais doce.

"Mel com fel" por Ricardo Duarte



“Um gosto de mel” é um filme que trata de assuntos polêmicos com uma inocência encantadora. Há uma relação inter-racial, um personagem gay, gravidez na adolescência, idéias de aborto e uma análise sobre a necessidade que sentimos de nos ligarmos aos outros, tudo num longa-metragem com diálogos deliciosos e músicas que parecem ter saído de um desenho animado. Essa é a característica mais interessante e bela do filme: emocionar-nos com a ingenuidade de alguns de seus personagens enquanto não ignora o lado duro e difícil da realidade.

Jo, a protagonista, é uma jovem da classe proletária cuja mãe não dá muita importância para ela. Sempre fugindo de um lugar para outro por falta de dinheiro para o pagamento das estadias, as duas têm uma relação bastante hostil, mas o filme nunca condena uma ou a outra por aquilo, embora tenda mais para culpar a mãe, mas vemos outras vezes que ela tenta se aproximar da filha, apenas para ser repelida brutalmente. Não há ali nenhuma chance de reaproximação. É nesse contexto: presa e ansiado por liberdade, como o pássaro na gaiola que sua mãe tem, mas sem coragem de fugir de sua progenitora, que Jo encontra e se apaixona por um marinheiro (símbolo de liberdade). Entretanto, logo após eles fazerem sexo e ele engravidá-la, ele tem que partir. A adolescente não pensa, ou não tem coragem, na possibilidade de ir com ele e, finalmente livrar-se daquela sua vida triste. Logo em seguida é abandonada por sua mãe, que se casa com um homem rude, mas de boa classe social. Aparentemente livre de um fardo, a vida da menina parece bem melhor, ela conseguiu a tão almejada liberdade. Conhece Geoffrey, um homem gay, e após um divertido dia no parque, resolve chamá-lo para morar com ela. Nesse momento vemos que embora Jo afirme que quer ser só, isso não é a verdade. Por mais que aparentasse satisfeita por estar sem Helen, assim que tem a chance de morar com outra pessoa, ela se agarra a isso. E é curioso notar que quando ela chama Geoffrey, eles ganharam um peixe num aquário no parque, fazendo um paralelo com o pássaro engaiolado que a mãe levou embora quando se casou. Após felizes e infelizes momentos passados juntos, os dois são separados pela chegada definitiva de Helen, abandonada pelo marido, que expulsa Geoffrey de lá. Num final doce-amargo, vemos-lhe indo embora, enquanto um menino acende um fogo de artifício para uma reflexiva Jo. Sempre aparecendo sujas, correndo ou metidas em confusões, as crianças do filme servem como um alerta para a protagonista, aumentando ainda mais o seu medo de ser mãe, entretanto, nesse final, é surpreendida pela gentileza de uma delas, que lhe dá algo para ilumina a escuridão, deixando em aberto que talvez seja o filho que terá que fará com que a sua vida melhore.

Tendo sido adaptado de uma peça, o aspecto verborrágico é bastante forte. Os personagens conversam o tempo todo, sobre os mais diversos assuntos e, na maioria das vezes, prosaicos, fato que não prejudica o filme, pelo contrário, fortalece a sua simplicidade e verossimilhança, ao retratar jovens que, comumente a idade, tem arroubos de tristezas seguidos por de extrema alegria e, muitas vezes, de uma arrogância inocente. Há também uma grande dose de sarcasmo e humor em diversas falas presentes ao longo da projeção. Alguns dos diálogos do filme são usados atualmente em letras da banda “The Smiths”, como “I'm not happy and I'm not sad”, ou “The dream is gone, but the baby's real.”. Há também momentos sem diálogos que, usando-se de todo o poder das excelentes atuações, transmitem para os expectadores todos os pensamentos e emoções que passam pelas cabeças daqueles personagens, tendo como exemplo mais obvio e mais significativo, o belo e introspectivo final.

Quase completamente formado de atores não profissionais, as atuações são impecáveis, especialmente as de Rita Tushingham (Jo) e Murray Melvin (Geoffrey), destacando-se ainda o fato do quão difícil deveria ser interpretar um personagem homossexual no início da década de 60. Afastando-se da expansão típica do teatro e focando-se em atuações contidas e realistas, esse aspecto revela-se acertado, aumentando ainda mais a nossa simpatia por aqueles personagens. Claro que, tratando-se de jovens, há alguns excessos necessários para demonstrar a própria vitalidade da juventude, como quando os dois protagonistas, efusivamente, decidem aproveitar o dia de feriado para passearem. Também se deve citar a atriz que interpreta Helen (essa já uma veterana) que convence como uma mãe egocêntrica e fútil, fazendo com que tenhamos uma mistura de raiva, pena e desprezo por ela. Merecidamente essas atuações resultaram em vários prêmios, como o Cannes de melhor ator (Melvin) e melhor atriz (Tushingham), o Bafta de melhor atriz (Tushingham) e o Globo de Ouro de melhor atriz iniciante (Tushingham).

Os cenários do filme e sua fotografia também são algo que merecem atenção. Dando enfoque a composições realistas, a câmera nos leva aos becos, ruas sujas, docas, ruínas e conjuntos habitacionais de uma Inglaterra que muitos cineastas escondiam, revelando-nos os lugares onde uma classe proletária triste e sem grande expectativas de vida passavam seus dias. Usa-se em todas as cenas externas a luz natural, resultando, muitas vezes em um ótimo efeito, como a conversa de Jo e Geoffrey embaixo do arco. Na maior parte do filme o que predomina é a escuridão, que, combinada com os cenários decadentes, aumenta ainda mais a angústia que sentimos por aqueles personagens.

Realizado em 1961 e dirigido por Tony Richardson, “Um gosto de mel” é um filme do movimento não oficial que ficou convencionalmente chamado de “British New Wave”, uma espécie de Nouvelle Vague britânica, sendo um de seus maiores expoentes esse diretor. Embora com poucos filmes, esse movimento é considerado por muitos como um dos mais importantes da cinematografia inglesa, pois foi uma “novidade bem-vinda após o entretenimento conformista (...) da primeira parte dos anos 50” ¹, fazendo com que muitos estudiosos do cinema inglês façam várias pesquisas sobre ele e sobre as inúmeras contribuições dele para o cinema britânico contemporâneo, influência perceptível em filmes como Trainspotting, 9 songs e outros. Vários das características que marcaram a British New Wave estão presentes nesse filme, como ser focado em jovens “rebeldes” e alienados, o enfoque dado a classe proletária, a fotografia sombria, as locações urbanas e decadentes e outros. Porém, há um fato que difere bastante dos outros filmes dos “angry young men”, que é o fato da protagonista ser uma mulher, dando um toque um pouco mais delicado e feminino a um universo de filmes focados em jovens homens violentos, fazendo com que esse filme seja uma espécie única (ou quase) desse movimento.

¹: Peter Hutchings, ‘Beyond the New Wave: Realism in British Cinema’

Material de consulta:

The British New Wave, B.F. Taylor, 2006.

"Um Gosto de Mel/A Taste of Honey (1961)" por Pedro Coelho



Estamos diante de um filme que explora um universo marginal: proletários, mulheres criando seus filhos sozinhas, crianças nas ruas, bêbados, gays, negros, jovens subempregados alugando pequenos apartamentos pelos sujos bairros de cidades industriais inglesas do pós guerra. Dentro deste universo trata-se de temas que ainda hoje são fortes, na época eram verdadeiros tabus para a sociedade: aborto, preconceito racial, homossexualismo.

Dito desta forma, parece ser um filme duro. Mas sua maior qualidade é a forma delicada que este ambiente é tratado. A estória é contada pela ótica de Jo, uma menina sensível criada por uma mãe solteira endurecida pela vida. Ela anda pelas ruas proletárias e zonas portuárias observando aquele mundo decadente de uma maneira tão ingenuamente poética como só um jovem moça poderia transmitir.

Jo sente desde cedo o peso da liberdade individual e das inseguranças de um mundo desprovido de convenções sociais: família e escola nunca havia sido uma realidade para ela. Mas mesmo diante deste ambiente árduo, ela não perde as fantasias e puerilidades. Em vez dela se adequar ao mundo, ela reconstrói o mundo de acordo com sua visão. Jo vai trabalhar, morar sozinha, se apaixona por um marinheiro negro que parte deixando-a grávida, e conhece um gay com quem começa a viver junto. Ela atravessa esses percalços da vida de maneira mais humana possível.

A apropriação que o filme faz da visão de mundo desta moça ingênua porém acostumada com o árduo mundo, permite ao filme esse angulo único. As sensações de Jo diante das paisagens urbanas, das fachadas dos edifícios, das, dos rios, das brincadeiras de crianças nas ruas, dos parques de diversão ao ritmo de Jazz band. Todo universo marginal que citei mais acima é, na verdade, só o pano de fundo para existências profundamente humanas e universais.

Mas não se deve esquecer que A Taste Of Honey é um típico exemplar de kitchen sink drama dirigido por um verdadeiro angry young man. Essa visão poética de vidas periféricas não procura higienizar esse universo. Em um cinema dominado por um visão de mundo exclusiva, mostrar uma outra perspectiva, partindo não dos dilemas da burguesia em relação aquele universo, mas dos dilemas internos que ali operam e mostra-los tão universalmente reconhecíveis é uma maneira muito mais inteligente e sensível de lidar com os conflitos sociais.

"Um Gosto de Mel/A Taste of Honey (1961)" por Bruno Alves


Spoilers a rodo.

Queridos leitores (sim, fingirei que mais de duas pessoas, contando o que vos redige, vão ler isto), vocês já passaram pelo fatídico e triste momento aonde tinham que escrever algo e no entanto não conseguiam? É a minha situação, amigos. Preciso escrever uma resenha de Um Gosto de Mel e no entanto não sai nada do meu pequenino mas esforçado intelecto. Estou com calor, fome e sono. Maldição. Perambulo pelo apartamento nesta quieta madrugada em busca de inspiração. Procuro um biscoito treloso para ingerir e nada encontro. Maldição. Deito no sofá para meditar o texto e acordo duas horas depois sem texto e com a coluna partida em quatro partes. Maldição. Vou ao banheiro lavar o rosto, acordar os sentidos. Me sinto como o protagonista de algum péssimo romance de Stephen King (desculpem o pleonasmo), mais um escritor fracassado sofrendo de um infame writer's block e assombrado por um espelho que insiste em mostrar uma verdade inconveniente: Meu rosto. Maldición.

Se engana o leitor que acha que essa introdução foi apenas para enrolar, enrolar, enrolar e botar o contador de palavras a girar, girar e girar. Não apenas isso, embora o leitor mais atento certamente notou que não havia a mínima necessidade de repetir três vezes os verbos da oração anterior, anterior, anterior. Sua função foi dupla. Também serviu para em minha auto-depreciação costumeira incorporar a personagem principal. Acho que está funcionando...

É bem esquisito, não apenas meu rosto mas esta sensação de se olhar no espelho e achar que há algo de errado com você. Imagine neste triste mundo monocromático que nossa protagonista Jo habita. Com duas bolas de gude (das buchudas) de olho, bocuda e um jeito moleque é uma deslocada natural. Sua mãe é promíscua, canta como se tivesse engolido um galão de hélio e nunca deu bola para nossa protagonista. Estão presas em um ciclo de insultos e tréguas, insultos e tréguas, insultos e tréguas (três vezes?!) que nunca se acaba. De casa em casa, sempre fugindo do fantasma do aluguel, não tem onde criar raízes e adquirir aquela segurança necessária para o crescimento saudável de qualquer pessoa. Sente uma carência natural nunca suprida por ninguém até a aparição supostamente fortuita em sua vida de seu príncipe Ossini (Jimmie para os íntimos), direto de um palácio luxuoso nas savanas de algum misterioso país da África, posando de descascador de batatas de um navio da marinha ele é a primeira fonte de afeto relativamente estável na vida da nossa feinha protagonista. Logo, logo, logo (três denovo?! Preposterous!) uma precoce paixão se forma e em pouco tempo estão trocando juras de amor e promessas de casamento.

Solidão é uma constante na vida de Jo e está prestes a se tornar permanente. Sua mãe, velhinha cheia de aforismos existencialistas, está prestes a se casar com Peter, boêmio com olho de vidro e uma tara por figuras maternas. Édipo ficaria intrigado. Infelizmente o conflito de personalidades entre Peter, o bebum edipiano de mão boba e nossa protagonista com suas pitombas que lhe encaram a alma, tudo chega à um prevísivel impasse... ou ela ou ele. Sua mãe não decepciona as baixas expectativas que já tínhamos dela e escolhe o óbvio ululante para alguém do seu quilate. É uma chance de ouro para recomeçar! Pois vá para o raio que te parta Jo mas antes um dinheirinho pro ônibus querida, quer que eu te acompanhe até o ponto? Grr....

É neste estado que Jo se entrega à Ossini que partirá no dia seguinte. Mas o futuro não importa, Jo só quer se sentir amada, mesmo que à beira de um rio fedorento, num chão seboso embaixo de um céu cinza tom grafite...

Larga a escola e começar a trabalhar numa sapataria, aluga um vasto apê caindo aos pedaços e inicia uma terna amizade com Geoffrey, sua primeira venda bem sucedida e homossexual sem teto. Jo rapidamente lhe chama para compartilhar moradia. Geoffrey é outro bicho esquisito, não apenas pelas características já citadas que não o faz ser o cara mais popular entre as senhoras conservadoras da Inglaterra dos anos cinquenta... e sim pelo valor simbólico do personagem. Ele é o verdadeiro amor que nunca houve na vida de Jo. É o amor incondicional sem nada a exigir, que mesmo pisado e chutado inúmeras vezes pela língua venenosa de Jo e suas alternâncias de humor, nunca desiste de oferecer-lhe o afeto que tanto necessita.

É o verdadeiro gosto de mel na vida miserável de nossa protagonista. Geoffrey é tão bom que chega a cogitar em sacrificar sua sexualidade pelo futuro filho de Jo (spoilers galore!). Caramba Geoffrey, você é o cara. Acho que se cada pessoa no mundo tivesse um Geoffrey só para si (lá ele) não haveriam pessoas tristes no mundo. Mas o retorno de uma velha coroca e a já citada gravidez jogam uma bigorna pesadíssima na bela amizade. Enfim, Um Gosto de Mel se passa no mundo real, onde contos de fadas não existem e nossa protagonista não quer ser mãe, muito menos solteira. Aonde o único herói do filme é expulso de casa e não se impõe à vilã existencialista. Aonde tudo acaba em uma ambiguidade... em uma incerteza angustiante.