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domingo, 7 de dezembro de 2008

"Memórias do Subdesenvolvimento (Tomás Gutiérrez Alea, 1968)" por Rafael Reines


A simples menção da palavra subdesenvolvimento tem tirado o sono de boa parte do povo latino-americano durante muito tempo, ela pode significar que seu país possui uma economia colonizada ou um baixo desenvolvimento industrial (IDH), ou simplesmente significar que o que vem de fora é melhor que o produto interno. Tomás Gutiérrez Alea lida com esse tópico de várias maneiras diferentes em seu filme Memórias do Subdesenvolvimento. O filme é focado na vida e nos pensamentos de Sergio, um intelectual burguês que ficou de fora da revolução - enquanto sua mulher e seus pais fugiram para os Estados Unidos - ele ficou para observar o que iria acontecer a Cuba durante a revolução. Típico homem de classe média alta, Sergio se achava superior aos demais cubanos, principalmente sobre as mulheres, que para ele eram todas fúteis e despolitizadas, ele se via como um intelectual europeu cercado de cubanos que pensavam de forma subdesenvolvida.


Usando cenas documentais da própria revolução cubana ocorrida no início da década de 60 misturadas com uma narrativa ficcional que bebeu diretamente nas águas do neo-realismo, Alea criou uma obra de caráter único que combinava perfeitamente documentário e ficção. Memórias do Subdesenvolvimento foi o 5º filme de Alea e provavelmente seu mais marcante (Morango e Chocolate, de 1994, também chegou a fazer algum sucesso, com uma indicação ao Oscar).
No filme, o termo subdesenvolvimento se refere tanto à estagnação política de Cuba quanto ao falso idealismo de Sergio. O jeito que Alea monta seu filme deve contar como seu próprio ato de resistência política: o material documental chama a atenção para uma dialética complexa do individual-grupal que é discutida por todo país.


Memórias do Subdesenvolvimento chocou os críticos dos Estados Unidos, quando teve seu lançamento pelos lados de lá em 1973, e os americanos descreveram-no várias vezes como "extremamente rico", "enorme e eficaz", "belo e subestimado" e "é um milagre". O filme não é nenhum "milagre" em si, mas simplesmente um dos exemplos mais finos do revolucionário cinema cubano, Memórias também teve uma recepção sem sal dos espectadores cubanos, apenas alguns cinéfilos retornam para vê-lo repetidas vezes. A estrutura complexa e a textura dialética presentes em Memórias do Subdesenvolvimento merecem que essas visões sejam refletidas, porque transforma os temas agora familiares da alienação e do "outsider" (aquele que assiste tudo de camarote) e os inserem num meio revolucionário. Nós nos identificamos e compreendemos Sergio, que é capaz de trazer-nos momentos do lucidez. Entretanto, nós compreendemos igualmente que sua perspectiva não é universal nem é atemporal, mais uma resposta específica a uma situação específica. Alea insiste que tais situações não são permanentes e que as coisas podem ser mudadas com o compromisso e o esforço. A história é um processo concreto e material que, ironicamente, é salvação de Sergio.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

"Memórias do subdesenvolvimento" por Rafael Acioly



Memórias do subdesenvolvimento.
É inquietante tentar descobrir o que é o subdesenvolvimento, ainda mais quando estamos vendo a nossa própria existência ser estendida para a decadência.
“As palavras devoram as palavras e deixam você nas nuvens, a milhares de milhas de tudo. Como sair do subdesenvolvimento? (...) No subdesenvolvimento não tem continuidade. Tudo é esquecido, as pessoas não são conseqüentes. Você se lembra de muitas coisas. Demais. Você não é nada, está morto. Agora começa, Sergio, tua destruição final.”
No filme “Memórias do subdesenvolvimento”, de Tomás Gutierrez Alea(1968) apresenta o anacronismo da vida de Sergio, um homem melancólico, já no final de sua terceira década e vivendo o angustiante conflito entre se contentar com as suas lembras ou persistir na esperança de um futuro prospero ali mesmo onde gostara de viver. Protagonista da Cuba pós-revolução (1961) que divide com ele as mesmas angustias anacrônicas, na verdade, há uma insistência em acreditar positivamente na esperança. Mas, ao longo da película vamos conhecendo, aos poucos, as ausências que provocam ao cenário um ambiente com um mixe de paranóia, melancolia e calefação tropical. A presença cada vez mais constante destas faltas vai tomando conta da esperança e apodrecendo os frutos de um passado.
A distância entre a realidade e as esperanças ao final se torna tão explicita e esta exposta em um discurso radicalmente hermético de Fidel quando nega a fragilidade do subdesenvolvimento frente às ameaças militares do capitalismo dos ianques. É neste hermetismo que parece esta centrada uma das principais críticas do filme para uma possível revolução socialista. Enquanto isto, a ilha estava tomada por uma estrutura militarizada na insistência socialista que vai aos poucos se autodesenhando para o autoritarismo.
É assim que são tratadas a todo instante as “memórias” de Sergio no filme “Memórias do Subdesenvolvimento”: são lembranças de um homem “podre”, que não é mais sábio e nem mais maduro, tornara-se “mais estúpido e mais podre do que maduro”. E ao final Sergio conclui que no subdesenvolvimento “nada persiste, pois tudo amadurece e apodrece com facilidade”. Mas a esta altura, ela já no auge da sua desesperança, prefere suspeitar que isto seja por conta do fenômeno natural determinado pelos trópicos o que faz de cuba um pais quente e por tanto subdesenvolvido. Aqui podemos encontrar com a sutileza de Edmundo Desnoes (autor do romance que deu origem ao filme) e de Alea nesta mescla de imagens reais e ficcionais para questionar antagonismos paradigmáticos como, por exemplo, as definições deterministas do desenvolvimento ou subdesenvolvimento por polarizações entre norte e sul; capitalismo e socialismo; quente e frio...