quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

“Blue Velvet escancara como os ricos adoram a violência”, por Roberto França


Como vários filmes de David Lynch, Blue Velvet (Veludo Azul) provoca emoções distintas: por um lado, sentimos o drama dos personagens e sofremos com eles, em contrapartida; ficamos distantes, como se o drama fosse apenas um sonho de uma classe suburbana americana e que nada que tinhamos visto até então tenha realmente acontecido. Esta narrativa onírica, aliás, também sarcástica, pode retirar um pouco do impacto das imagens e dos acontecimentos dramáticos que ocorrem no filme. Os acontecimentos violentos do filme aparecem um delírio de um subúrbio americano, que anseia por um momento espetacular, uma acontecimento fora do comum, que os retire da inércia. A violência, claro, é um prato cheio para isso.

 É interessante observar como cada um dos personagens reage de forma diferente a este mundo fantástico do crime. Jeffrey está eufórico, determinado em salvar a donzela em perigo. Sandy está relutante e acaba sendo a arma da narrativa que antecipa acontecimentos posteriores da trama, provocando medo no espectador em relação ao destino do personagem. Embora Sandy esteja com medo e ansiosa, ela também acaba se infiltrando neste mundo, mais por amor por Jeffrey, do que curiosidade ou sentimentos benevolentes. Dorothy, tão acostumada com a dor, é incapaz de concluir o ato sexual sem pedir um pouco de violência. A figura de Frank é a do mal que todos os outros personagens de alguma forma bebem. É um vilão riquíssimo em traços e particularidades instigantes. Com sua máscara de ar e sua psicopatia, ele realmente passa a ideia de um perigo constante ao longo da projeção, fazendo-nos temer pela vida do herói Jeffrey, principalmente na crise, o ponto mais perigoso para o personagem.

 O duelo entre bem e mal na história é explicitado por um contraste claro entre o bem e o mal. No entanto, mesmo com roupas de cores tão distintas: Sandy, rosa; Frank, preto, em Blue Velvet a visão irônica de David Lynch sobre aqueles personagens é de um claro deboche, que se tornam mais fortes no prólogo do filme. Estas indagações sobre a visão do Lynch sobre a história que conta surgem quando pensamos no epílogo e no prólogo do filme, pois são imagens que satirizam de alguma forma os bonzinhos da história. 

Mesmo trazendo uma narrativa intensa, um dos pecados do filme é a resolução rápida da história que, ao menos para mim, foi um pouco anti-climática, embora rica simbolicamente. Ao propor discussões a respeito da visão sobre a violência e como as vemos, é um filme que produz sensações fortes mesmo com uma trama demasiadamente onírica, e, por isto, é melhor do que uma grande parte das obras existentes por aí.

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