Mostrando postagens com marcador manoel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador manoel. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de agosto de 2014

"O estranho caso de Angélica", por Hannah Cunha Alves















Em O estranho caso de Angélica (2010), Manoel de Oliveira aborda um tema peculiar e pouco visto em filmes atuais. Passado em 1950, poderia ser retratado em qualquer tempo e espaço; a narrativa segue no ponto de vista de um homem, um fotógrafo introvertido, apesar de abordar o ponto de vista de alguns outros personagens em certa altura da trama. Isaac (Ricardo Trêpa), personagem curioso e complexo,  vê-se na oportunidade de exercer seu trabalho certa noite e sua vida desaba. Com um tom natural e ao mesmo tempo onírico e transcendental, o filme se desenvolve a partir dos monólogos e melancolia vindos do protagonista.

A obra é linear, com quase imperceptíveis e leves passagens de tempo e trilha sonora com Chopin, acompanhando e dando leveza nos momentos certos. Os planos são longos e, na maioria, abertos, mas não cansativos, geralmente centrando em algum objeto/ser ou iluminação, contrapondo com os tons escuros ao redor, deixando-os em destaque, revelando uma facilidade em se apossar e ingressar na trama.

Há certa monotonia, apesar do caráter inquietante que nos faz questionar o viver, no que se diz respeito à narrativa, o que não desmerece o filme, mas o enriquece, somando à vida do personagem que se vê mergulhado em visões e dúvidas. Percebe-se muitos paralelos e menções entre personagens e objetos e animais e o diretor não propõe disfarçar tais comparações e metáforas ou adiar o julgamento do teor da obra – uma vez que há a certeza do que o espectador está embarcando nos primeiros segundos do filme com uma citação de Antero de Quental –, mas deixar o mais claro possível o que está sendo tratado, com sutileza e destreza.

É impossível, também, reparar a religiosidade implícita no filme e não associar a certos padrões e costumes nele apresentados, pois sua relação com o divino é parte central e o que nos faz questionar as decisões e ações do indivíduo dentro e fora da tela.  Seria incompleto se não mencionasse a corrente invisível que o personagem aplica em si, preso no passado, reavivando cenas cotidianas de outrem nas suas fotografias, vivendo por isso. Tal fuga da realidade seria um espelho entre mundos – material e espiritual – cujo devaneio se dá pela incerteza da morte e pelo amor versus obsessão por algo que não se pode ter – ao menos materialmente. Um desespero, sim, pelo amor e por algo mais que a mera existência humana, algo profundo e não carnal; desespero interno alimentado pela necessidade de que um “anjo”, Angélica (Pilar López de Ayala), o liberte das algemas e o carregue para o sublime, afastando-o de suas angústias. As janelas são fechadas, um novo ciclo começa.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

"Violência e poesia" por Manoel Pires Medeiros Neto


Sem muito alarde por parte da mídia em geral, que quase desconhecia o realizador Chan Wook-Park ou Park Chanwook (numa tentativa mais americanizada de denominá-lo), Oldboy (2003) foi exibido no Festival de Cannes no ano posterior ao seu lançamento e levou o Grande Prêmio do Júri, liderado por Quentin Tarantino. Simpatizante do cinema oriental devido ao sopro de criatividade proveniente das terras de lá, Tarantino ‘arrepiou-se’ com o enredo e a estética do filme. Tratando de vingança, da crise da vida moderna, da hipnose e envolto por tabus sexuais, o filme marcou, para muitos, a revalorização cinema do horror.
Com uma passagem discreta pelos cinemas brasileiros, é um recorte bizarro e brutal da realidade humana, sem deixar de acrescentar a narrativa de personagens com dimensões sentimentais e humanas. Uma verdadeira jóia nos tempos dos filmes sem sal reverenciados pelo capitalista cinema hollywoodiano.
Baseado num mangá, tradicional histórica em quadrinhos japonesa, o roteiro do filme é intercalado por momentos de alta agitação e outros mais reflexivos (utilização constante de flashbacks). Apresentando a história aos poucos e sem perder seu estilo, Chanwook constrói paulatinamente o quebra-cabeça que dá sentido ao todo, provocando no espectador uma curiosidade gradativa e alucinante, fiel ao estilo de Hitchcock em produzir tensões.
Após ser fichado na polícia por estar bêbado nas ruas da cidade, Oh Dae-su (Min-sik Choi) é seqüestrado. O exílio forçado de quinze anos é acompanhado por intensa tortura física e mental – Dae-su só tem conhecimento do mundo através das TV, através de sua realidade distorcida. O gás soporífero adormece-o diariamente e, certo dia, ele acorda na rua, livre, com poucas roupas e uma obstinação – vingar-se. A partir daí diversos encontros marcarão sua história. Mi-do (Hye-jeong Kang), garçonete de um restaurante aonde Dae-su devora animalescamente um polvo vivo, numa cenas mais fortes da montagem, torna-se sua paixão e principal aliada. Woo-jin-lee (Ji-tae Yu), colega da época da escola, seu maior inimigo.
A violência carregada da obra tem caracteres poéticos – a beleza estética de algumas cenas de luta entrecruza-se com violentas passagens de automutilação, que assustam os espectadores pouco adeptos às flagelações. Entre os dilemas entre violência e poesia, pode-se, por absurdo que seja, dar vitória ao aspecto de beleza que o filme retrata. Beleza das insanidades humanas. Chanwook dá o tempo certo entre as tomadas no objetivo de atingir a recepção desejada – nem mais nem menos. Estudante de filosofia na faculdade, não é a toa que Oldboy (2003) pareça uma crônica competente da contemporaneidade. A frase final, “Embora eu não passe de um animal... não tenho o direito de viver?” reflete profundamente acerca dos dilemas existenciais humanos. Oldboy é mais que um filme de horror, como alguns insistem em classificá-lo. É um drama romântico-bizarro que resume magistralmente a claustrofobia do homem atual no que tange ao amor e ao tempo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

"Cinema-barroco à moda do chefe" por Manoel Pires Medeiros Neto






São diversas as opções de filmes disponíveis nas prateleiras das locadoras. A dúvida entre a comédia romântica e o suspense é a deixa para o início de uma discussão entre um casal de namorados. Bate boca quase sempre sem razão de ser – com a pasteurização dos produtos culturais da contemporaneidade, a superficialidade das obras faz parecerem tão semelhantes quanto inúteis. Entretanto, há opções mais animadoras repousando sobre tais prateleiras. O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenway, lançado em 1989, é o típico filme difícil de ser esquecido. Ao assisti-lo, os olhos atentam para a efervescência de imagens e cores paradoxais que fazem emergir variadas reações perceptivas. Um passeio angustiante entre as facetas nuas e cruas, literalmente, da subjetividade humana.
A história se passa em Londres (mas poderia se enquadrar em qualquer outra cidade grande européia ou americana), especificamente em torno do restaurante “Le Hollandais”, conceituado na produção de alta culinária. O refinamento do recinto, no entanto, defronta-se com o irregular comportamento do seu proprietário, Albert Spica (Michael Gambon), que janta lá diariamente, acompanhado de sua mulher, Giorgina Spica (Helen Mirren), e de outros acompanhantes chefiados por ele.
Narrada dia a dia, a trama é desenrolada a partir do instante em que os olhares de Giorgina e de um cliente, o dono de uma livraria, Michael (Alan Howard), se entrecruzam. A paixão e as sucessivas relações sexuais dos dois, em diversas partes do restaurante, chegam ao conhecimento do totalitário Albert. Tensão e morte dominam a continuação da película que é finalizada com uma das seqüências mais marcantes da história do cinema – o cozimento dos restos mortais de Michael servidos ao tenebroso Spica. Ao citar o canibalismo, a obra atinge o seu ápice – um retrato irônico da machadiana reflexão: “aos vencedores, as batatas”.
A estética rebuscada e bem realizada é o grande trunfo do filme. Para Greenway, os muito preocupados com a narrativa deveriam ser escritores e não cineastas. O roteiro do filme, simples ao extremo, não compromete o resultado final e chega a provocar reflexões: política e capitalismo podem ser debatidos após uma sessão de O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante. Utilizando-se da linguagem do teatro, a fotografia, comandada por Sacha Vierny (O Ano passado em Marimbaud e Hiroshima meu amor), colaborou com a construção de cenas que remetem ao horror que a história necessita. Com figurinos do competentíssimo Jean-Paul Gautier, a produção ganha ares de requinte e luxo. Tudo para compor, com o auxílio da interessante iluminação (vermelha, branca, dourada e verde) uma atmosfera burguesa e cafona. Uma pintura poética que mistura sofisticação, luxo e crueza. O ponto alto da produção artística de Greenway.
Faz-se presente, no cenário principal (salão do restaurante), a tela do naturalista holandês Franz Hals, intitulada “O banquete dos Oficiais da Guarda Civil de São George”. A pintura, que é uma reflexão sobre o egoísmo, estaria funcionando como ataque direito às atitudes egocêntricas do governo inglês, sob o comando da mão-de-ferro, Margareth Thatcher. O povo inglês, prejudicado com o crescimento dos impostos (como, por exemplo, a poll tax), já não a suportavam. Além desse aspecto, é possível observar a forte influência de um pensamento barroco na construção estético-narrativa do filme. Ao contrapor cenas de sexo e de preparação de pratos requintados; luzes claras e escuras; a ignorância do Ladrão com o requinte intelectual do Amante, Greenway sublinha o contraditório jogo no qual o ser humano está em constante participação.
Com excelentes atuações do seu elenco, uma história simples e cenas chocantes, o filme dividiu críticos na época do seu lançamento. É uma obra difícil de ser esquecida. Ao focar o ser humano através dos elementos pré-escatológicos, Greenway posiciona-se do lado oposto dos triviais filmes aos quais os casais de namorados tanto se acostumaram a assistir. Beleza plástica, reflexão e canibalismo – marcas de uma inesquecível “história de amor”.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

"Meretrício de luxo" por Manoel Pires Medeiros Net


Sofisticação e delicadeza misturam-se à temática pesada em obra-prima de Edwards

Nem tudo que parece, de fato, é. Filosofias clichês da ‘psicologia’ da auto-ajuda, como essa, reproduzem-se alucinadamente esquinas afora. Mas, sempre há de se concordar. O que você imaginaria da mistura que contém um roteiro baseado num texto de Truman Capote, direto e pessimista, e uma protagonista prostituta, que vive em Nova York, sonhando em dar o golpe do baú? Bonequinha de Luxo, longa-metragem de Blake Edwards, lançado no início da década de 60, endossa a verdade do ‘mantra’ citado acima. Do vulgar ao pueril, requintes de um clássico cinematográfico.

A história de Capote, Ao começo do dia, lançada em 1958, é a principal fonte de inspiração do filme, estrelado por Audrey Hepburn, atriz consagrada em Hollywood devido às suas personagens recatadas e encantadoras, o que contrariou o desejo do escritor, que preferia a atuação de Marylin Monroe, mais sexy e condizente com a essência das escritas capoteanas. De fato, fora uma escolha acertada. Edwards, já consagrado com seus filmes de comédia, entre eles A Pantera-Cor-de-Rosa e Um convidado bem trapalhão, desenhou uma narrativa muito mais leve e fluida que aquela registrada na história em que se baseou. Apesar de constituído por elementos densos, a narrativa é guiada camuflando os aspectos mais sórdidos, como, por exemplo, a bissexualidade da personagem principal. Bonequinha de Luxo é muito mais uma pintura bem humorada e, sobretudo, requintada, de uma doce mulher e uma interessante paixão na Nova York do século passado.
O enredo do filme, apesar de rodado há quase cinqüenta anos, cita questões da contemporaneidade e, certamente, esse é um dos motivos que o levaram ao hall dos grandes filmes da historia da sétima arte. A prostituição e a procura da felicidade através do poderio material são discutidas desde os remotos tempos de Sófocles no teatro grego, já que essa, como se diz por aí, é a profissão mais antiga da história da humanidade. Sabe-se, entretanto, que os ângulos de visão para tal produto social são os mais diversos possíveis. Holly Golightly, personagem de Hepburn, mostra-se através de um discurso metafórico e permeado por requintes da burguesia. O figurino da personagem, que veste roupas do francês Hubert Givenchy, virou mania entre as grã-finas da high-society na terra do Tio Sam. O pagamento, pelos seus ‘amigos’, de cinqüenta dólares a cada vez que ia ao banheiro é o grande código àqueles que enxergaram algo de mais podre na vida dela.
Exibido a cores, no tempo em que o preto e branco ainda era vigente, o filme não se responsabiliza por tentativas de parecer de vanguarda. Objetivou-se, em primeiro plano, na ambição do lucro, coisa que a indústria cinematográfica americana já sabia fazer muito bem naquele tempo. Mas, assim como em outros objetos culturais, a aclamação da crítica surgiu rapidamente (conquistou o Oscar de melhor trilha sonora e de melhor canção, além de outras indicações).
As atuações do afinado elenco também fizeram com que o luxo da Tiffany´s e as trapalhadas de Hepburn alcançasse o sucesso que obteve. George Peppard, no papel do escritor sustentado pela ‘decoradora’, atingiu o êxito que o casal de protagonistas exigia. Saiu da trilha, entretanto, a atuação de Mickey Rooney, o Sr. Yunioshi, num papel muito mais do que ridículo. Não se justifica as insistentes aparições do japonês que, sem saber ao que veio, quase levou a obra ao ‘quintal dos excluídos’. Há de destacar-se, finalmente, a presença do gato sem nome. O animal representa, emblematicamente, o não reconhecimento da situação de Holly naquele tempo à espera da triunfal e verdadeira vida que ela sonhava (só aí móveis e nomes seriam atribuídos e aceitos).
No Brasil, as influências do filme de Blake Edwards na indústria do áudio-visual podem ser observadas em Paraíso Tropical, telenovela recente veiculada pela TV Globo, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. A personagem Bebel, vivida pela competente Camila Pitanga, imigrou de um bordel na Bahia rumo ao estrelato da vida carioca. Após muita luta, encontrou seu ‘José da Silva Pereira’ e transformou-se na chique ‘socialite’ a exibir seus trajes e chapéus nos primaveris casamentos no outono. Muito mais vulgar, muito mais entregue - mas era de luxo.