quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

"Violência e poesia" por Manoel Pires Medeiros Neto


Sem muito alarde por parte da mídia em geral, que quase desconhecia o realizador Chan Wook-Park ou Park Chanwook (numa tentativa mais americanizada de denominá-lo), Oldboy (2003) foi exibido no Festival de Cannes no ano posterior ao seu lançamento e levou o Grande Prêmio do Júri, liderado por Quentin Tarantino. Simpatizante do cinema oriental devido ao sopro de criatividade proveniente das terras de lá, Tarantino ‘arrepiou-se’ com o enredo e a estética do filme. Tratando de vingança, da crise da vida moderna, da hipnose e envolto por tabus sexuais, o filme marcou, para muitos, a revalorização cinema do horror.
Com uma passagem discreta pelos cinemas brasileiros, é um recorte bizarro e brutal da realidade humana, sem deixar de acrescentar a narrativa de personagens com dimensões sentimentais e humanas. Uma verdadeira jóia nos tempos dos filmes sem sal reverenciados pelo capitalista cinema hollywoodiano.
Baseado num mangá, tradicional histórica em quadrinhos japonesa, o roteiro do filme é intercalado por momentos de alta agitação e outros mais reflexivos (utilização constante de flashbacks). Apresentando a história aos poucos e sem perder seu estilo, Chanwook constrói paulatinamente o quebra-cabeça que dá sentido ao todo, provocando no espectador uma curiosidade gradativa e alucinante, fiel ao estilo de Hitchcock em produzir tensões.
Após ser fichado na polícia por estar bêbado nas ruas da cidade, Oh Dae-su (Min-sik Choi) é seqüestrado. O exílio forçado de quinze anos é acompanhado por intensa tortura física e mental – Dae-su só tem conhecimento do mundo através das TV, através de sua realidade distorcida. O gás soporífero adormece-o diariamente e, certo dia, ele acorda na rua, livre, com poucas roupas e uma obstinação – vingar-se. A partir daí diversos encontros marcarão sua história. Mi-do (Hye-jeong Kang), garçonete de um restaurante aonde Dae-su devora animalescamente um polvo vivo, numa cenas mais fortes da montagem, torna-se sua paixão e principal aliada. Woo-jin-lee (Ji-tae Yu), colega da época da escola, seu maior inimigo.
A violência carregada da obra tem caracteres poéticos – a beleza estética de algumas cenas de luta entrecruza-se com violentas passagens de automutilação, que assustam os espectadores pouco adeptos às flagelações. Entre os dilemas entre violência e poesia, pode-se, por absurdo que seja, dar vitória ao aspecto de beleza que o filme retrata. Beleza das insanidades humanas. Chanwook dá o tempo certo entre as tomadas no objetivo de atingir a recepção desejada – nem mais nem menos. Estudante de filosofia na faculdade, não é a toa que Oldboy (2003) pareça uma crônica competente da contemporaneidade. A frase final, “Embora eu não passe de um animal... não tenho o direito de viver?” reflete profundamente acerca dos dilemas existenciais humanos. Oldboy é mais que um filme de horror, como alguns insistem em classificá-lo. É um drama romântico-bizarro que resume magistralmente a claustrofobia do homem atual no que tange ao amor e ao tempo.

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