segunda-feira, 13 de outubro de 2008

"Aqui ou Ali" por Bernardo S. Mendes


No ano de 1984, quando contava apenas 32, Jim Jarmusch lança o seu segundo longa, Estranhos no Paraíso (Stranger Than Paradise), fazendo uma análise do paraíso americano e do sonho estrangeiro em uma terra que parecia ser prometida. Willie é um imigrante húngaro desocupado, que vive de apostas em corridas de cavalo e jogos de poker. Vivendo num pequeno apartamento em Nova York, Willie é o símbolo da falta de perspectivas, do tédio e da conformação com uma vida monótona. O paraíso que o esperou na América está apenas do lado de fora do seu apartamento, ou na televisão. É interessante ver como Jarmusch expõe essa contradição em cena, onde o país dos sonhos é o país em que ele está, mas que não passa de uma paisagem pouco contemplada.


Willie recebe uma ligação de parentes seus avisando que uma prima sua, Eva, teria que passar alguns dias em sua casa antes de viajar para Cleveland, onde sua tia Lotte iria abrigá-la, mas teve que ser internada. A chegada de Eva ao convívio de Willie não lhe vem a ser tão agradável. De maneira rude e indiferente, seguindo o tédio diário que, incrivelmente, o paraíso lhe proporcionava, ele segue tratando a presença de sua prima. Jarmusch coloca Eva como o elemento recém-chegado no paraíso. Portanto, para ela, o país ainda lhe era algo novo e os sonhos, teoricamente, ainda estariam verdes e vivos nela.

Como modificadora da rotina de Willie, direta ou indiretamente, Eva proporciona uma modificação discreta no modo como o primo a vê nesse convívio e um relativo afeto é posto na relação dos dois. Eddie, um fiel amigo de Willie, é outro daqueles perdidos, que crêem que a busca está além do espaço em que se vive, que tudo está lá fora, mas não chega a ser um sonhador. Por sentir afeto por Eva e vislumbrar na presença dela uma perspectiva de mudança de ambiente e rotina, Eddie tenta levá-la consigo para os lugares que sai com Willie (em geral, as apostas), mas sempre esbarra na negativa do primo, que seja em Nova York, seja na Flórida, sempre opta por deixar sua parente em casa. Porém é o próprio primo que propõe, mais tarde, uma visita a Eva em Cleveland, onde ela fora viver com a tia.


A narrativa do filme, fria, com uma câmera contemplativa e estática, onde não há cortes dentro de uma cena, faz uma analogia a essa frieza em que vivem os personagens, em seus diálogos breves, nas suas falas curtas. O pensamento é aquilo que sugere e o que espectador pode extrair como elemento para compreensão da profundidade dessas três criaturas que acreditam que o que é bom está sempre no outro lugar. Em Nova York, Cleveland ou na Flórida, nesse paraíso, nesse mundo novo, não importam as paisagens, não importam os termos que os levem a buscar uma diversão entre si, sempre estará presente o tédio, a inércia, a aparente frieza, a indiferença. O paraíso acaba sendo sempre um sonho, uma idéia que se dissipa assim que é concebida, uma imagem que se borra logo que o real é constatado.


Eva, o elemento modificar, em nada se modifica e nem modifica aos outros. Dela é que mais se esperava uma grande mudança, uma virada, no entanto, acaba tornando-se uma garçonete frustrada numa pequena lanchonete de Cleveland, morando com a tia que a controla e restringe sua liberdade, seu espaço. Mesmo ao tentar sair desse espaço, quando Willie e Eddie a reencontram um ano depois, nada é resolvido, tudo continua estático apesar dessa leve busca existente junto a eles. Eva tem a oportunidade de pegar um avião para qualquer lugar, ela quer qualquer canto da Europa o mais rápido possível, mas qualquer canto vai ser sempre o mesmo canto, o mesmo espaço onde a alma deles é impermeável. A estranheza, colocada no título, é o silêncio, o pouco contato existe entre eles, a pouca intimidade. O que os une nesse paraíso é o desejo de sair da rotina, largar o tédio, buscar algum desejo, algum sonho.


Eddie, personagem no qual reside a ironia e o humor do filme, é também aquele que percebe as situações e as traduz para quem assiste. Ele é aquele que descreve as belezas de uma cidade, as elogia, mas revela sempre ao final que nunca esteve em tal lugar. Ao constatar, em Cleveland, que por mais que tivessem vindo de tão longe pareciam que estavam no mesmo lugar, Eddie retrata para nós a fuga da monotonia construída em cima de uma imagem deturpada, pois onde quer que vá o sentimento será sempre o mesmo, o paraíso não vem e nem se modifica. A ironia de sua pergunta final, no aeroporto, parece se dirigir somente a nós, já que ele se encontra sozinho na cena: “mas o que é que ele vai fazer em Budapeste?”. Eddie não sabe, porém, que lá e cá não há diferença, o paraíso pode estar em qualquer lugar. E a vida seria, mesmo assim, tão diferente na América ou em Budapeste?

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