sábado, 9 de agosto de 2014

"Paisagem na Neblina (Theo Angelopoulos)", por Ronald Paixão



Poderia começar esta resenha descrevendo a poética narrativa que se sobressai durante todo o filme, mas não o farei. Começarei do princípio visível, daquilo que nos distancia da história contada na tela e que de certo modo, abrange questões muito além de uma ótica simplista vinda de um espectador comum.

O filme em si poderia ser definido como “estático”; longos planos e pouca inovação no âmbito da montagem. Trarei um exemplo de cena que caracteriza bem esse tipo de inércia: A pequena Voula se agarra ao irmão na cabine do caminhão do estranho que lhes havia dado carona. O motorista diz que vai descansar e sai da cabine, mas acaba retornando pouco tempo depois, já no lado das crianças que ainda descansam, e retira a menina de lá. A cena se estende durante quase dois minutos, focando a lona dos fundos do caminhão, escondendo o ato de estupro que a pobre jovem sofria. E é angustiante a cena pois não vemos o que a acontece, apesar de sabermos, enquanto um carro para na rodovia logo ao fundo do plano, o que estala a mente do espectador num surto positivo “Ela será salva e ele será punido pelo ato!” mas não acontece isso. Durante quase dois minutos observamos apenas a lona do caminhão, verde, sóbria, inerte. Até que o irmão acorda e clama desesperado o nome da irmã.

A composição das cenas também chama bastante a atenção. As crianças parecem sempre miúdas o bastante em comparação com o cenário, isso nos passa uma sensação de impotência, como se tudo ao redor deles os reprimissem e os colocassem na condição frágil de uma criança perdida nas vielas podres de uma sociedade.

Outra coisa também no âmbito técnico/sensível é a sua trilha sonora melancólica. O filme já começa com a trilha que é repetidas vezes inserida em cenas de deixar o espectador com uma certa inquietude fascinante. O som do filme é bem natural, faz com que percebamos de imediato o clímax da cena.

Esquecendo um pouco as questões técnicas, temos uma história que em si já tornaria o filme numa dessas obras primas para guardarmos numa estante. A aventura dos irmãos é totalmente grandiosa e triste. Não sabemos nada sobre o pai deles ou sobre a mãe. Na verdade não sabemos nada. O filme se desenvolve e você permanece não sabendo de nada. A mãe não tem rosto, tampouco o pai. Até que ao serem pegos (as crianças) num trem sem o passaporte, são entregues a polícia e de lá são encaminhadas ao tio, irmão da mãe das crianças, e este diz que o pai na verdade não existe ou deixou de existir, e que a Alemanha (Destino da viagem dos irmãos) foi só uma invenção da mãe deles para que imaginassem como deveria ser a vida do pai. A pobre Voula não acredita no que o tio havia dito e foge, some do nosso olhar.

A Voula talvez seja a personagem mais fantástica do filme, não tirando o mérito do excelente personagem Alexandro que está o tempo todo querendo parecer o mais forte possível, apesar de ser apenas uma criança que sonha com o pai frequentemente. Voula é uma jovem menina que guarda dentro de si um mundo de complicações femininas, e que sofre pelo desespero do irmão de achar o pai. Ela não se rende, pelo contrário. Ela leva o filme nas costas durante quase todo ele, até que o irmão equilibra os pesos. Vítima de um estupro, angustiada por essa Alemanha tão distante, e por essa busca desenfreada que não os leva a lugar algum, acaba por enfraquecer perante a realidade cruel de que eles não conheceriam o pai, mas continua, graças ao otimismo do irmão.

Conhecem Orestes, um rapaz que também enfrenta uma aventura interior. Ator de um grupo teatral falido, e prestes a se alistar no exército. O crescimento dos três personagens é de uma total sensibilidade. Eles são frágeis, frágeis e tão fortes. Até que se separam, rumo as suas aventuras prioritárias.

O fim é totalmente interpretativo. Estão enfim prestes a chegar à Alemanha, logo após o rio. Entram no barco e se lançam no rio que os separava do término da aventura, a tal terra prometida onde o pai mora. A cena escurece e uma voz ecoa firme “ALTO!” e logo após um estampido. Nada vemos novamente, o que acaba por nos lembrar da cena do estupro. Mais uma vez a sensação de inquietude aflora o espectador. Até que Alexandro acorda, cercado pela neblina que esconde tudo. É uma cena muito bonita e confusa. Voula diz em sussurro “Tenho medo” e Alexandro agora, invertendo os papéis do protetor e protegido, repete uma das frases do conto que a irmã lhe contava e que nunca chegava ao fim, sempre os impediam de terminar o conto, mas não dessa vez. “E depois se fez a luz” e a neblina se vai, revelando logo ao fundo uma árvore grande e imponente. Os irmãos se agarram à arvore e o filme acaba.


Acaba-se a aventura, ou ela apenas começou? Paisagem na Neblina meio que não nos responde essa pergunta, talvez não responda pergunta alguma, belo e confuso, como neblina. 

Um comentário:

  1. eu tinha uma revista Veja que fazia uma critica sobre esse filme.desde então sou fascinado por essa Paisagem.muito bom o seu texto!vida longa ao blog!Marcos Punch.

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