domingo, 18 de abril de 2010

"O terceiro homem" por Bruno Alves Ferreira


A verdadeira estrela do filme.


Cuidado, pode conter spoilers.

Assisti O Terceiro Homem pela primeira vez após duas madrugadas em claro e tenho que admitir que dormi lá pelos 40-60 minutos de filme perdendo a oportunidade de uma experiência completa. Peraí eu conheço essa música. Alguns elementos do filme conseguiram me tocar (lá ele). Primeiro a beleza séria e exuberante de Alida Valli que interpreta Anna Schmidt. Ô mulher linda. Linda no luto pelo infame Harry Lime. Linda na labuta glamourosa com sua peruca e vestuário de piriguete vitoriana, linda em sua risada burlesca ich, ich, ich e linda rejeitando o mané do protagonista. Sim, estou falando do autêntico coitado Holly Martins, escritor de faroestes capengas e galã de terceira, que tenta de todas as formas seduzir a namorada do seu recém-falecido amigo. Não deixou nem o corpo esfriar. É assim mesmo, independente de tempo e lugar “amigo” fura-olho sempre existirá.

Este fracassado chega na forçadamente cosmopolita Viena pós-segunda guerra atrás de um trabalho prometido pelo seu “old pal” Harry Lime. Mas como autêntico pato Donald de sobretudo que é, chega logo após um acidente em que o mítico Harry (que merece admiração só pelo feito de capturar o coração de Anninha) morre cercado por seus suspeitos amigos, sem um puto na mão e tendo que se dobrar ante aos ingleses pra voltar pra casa. Quem mandou passar debaixo de escada. Boo, Holly Martins, Boo! Eis que outro mané lhe dá a oportunidade de alguns dias de permanência onde o “maioral” alterna entre suas intrépidas investidas amorosas solenemente pisadas e esmagadas com decoro e um olhar frio mas hipnótico dessa deusa da beleza, ser empurrado de um lado por outro por estrangeiros cada vez mais insólitos em suas tentativas risíveis de investigação, e ser feito um autêntico yankee bitch pelos todo-poderosos ingleses(mais em alguns parágrafos). Boo!

Poderia até simpatizar com o personagem se ele desse a oportunidade. Confuso em uma terra estranha onde não entende pitombas do que lhe falam, de gente suspeita, de mercados negros, de olhares em soslaios, de intelectuais querendo sua opinião sublime de homo habillis sobre fluxo da consciência e James Joyce, espancado fisicamente pelo seu primo evolucionário mais forte o neandertal (e consequentemente fã de seus livrinhos) Sargento Paine e levando bordoadas verbais do Major Calloway que tem uma personalidade de verve britânica mas cara e bigodinho de francês, envolvido em algo bem maior que ele, autêntico cego em tiroteio. Mas ele não largava o osso. Deixe a bela Anna em paz, rapaz! Não aguento mais essa música. Dormi. Sonhei com uma velha desdentada que não calava a boca. Da onde será que vem essas imagens sombrias que pairam em meus sonhos?

Nova abordagem. Histórica. Graham Greene e Carol Reed traem suas origens. Os
americanos são intrépidos e atrevidos. Mas um é fracassado e outro é bandido. Os britânicos são os cool e descolados. São eles que botam ordem na no pardieiro. Se estudassem na UFPE estudariam no CAC e atrairiam olhares de inveja dos outros departamentos que argumentariam, “É assim, agora, mas quero ver só quando se formarem, há, há! Hippies...”. Os vienenses suspeitos. Tão suspeitos que o enquadramento até se inclina durante as conversas, vejam só que perturbador. Tão suspeitos que um tem cara de capeta, usa gravata borboleta com bolinhas coloridas, carrega um daqueles cachorrinhos abusados e cheio de não me toques popular com as madames da alta sociedade, echarpe de pelo, provavelmente de algum animal bem raro e em extinção, dando mais pinta que Ronaldo Esper no superpop. Já falei que ele sorrindo parece um capeta? Já né. E ninguém acha estranho! Tem gente que até janta com esse capetinha tocando violino ao lado! E o médico que não sabe cortar nem peru de natal e peraí já vi esse cachorro? E que diabos de nome é Popescu? Se me falam isso eu respondo: “Sua mãe!”. Holly Martins também, provavelmente. E os russos... Uma ameaça misteriosa que paira sobre todos, são aqueles que não devem ser nomeados, sua área da cidade é uma terra de ninguém onde até o poder da mão controladora dos almighty british não consegue se estender. Cara, que música chata!

Tudo envolto em sombras que se projetam agouradamente sobre os personagens, escadas com corrimões tremelicantes e criancinhas adoráveis jogando bola. E a presença inebriante de Anna Schmidt. Assim como esta resenha o início do filme é assim. Roda, roda, roda, roda e não parece sair do lugar. Tudo retorna ao início, à Alida Valli, quer dizer, ao acidente. Tem algo de muito estranho nesse acidente e como avisei lá vem a bomba! Harry Lime está vivo! Tentei imaginar-me na platéia durante a estréia do filme na antológica cena da grande revelação entre gritos de bloody hell e great scott! Infelizmente assisti em 2010 e a permanente menção da presença de um Orson Welles de sorriso todo maroto me estragou essa oportunidade catártica.

Tudo muda. Enfim o filme engrena, caminhando para o famoso clímax. Mas antes uma comparação. Devo admitir que com a ressurreição oportuna de Harry até que senti pena do coitadaço Holly. Seu tão idolatrado amigo lhe fez de mais besta que já é. O fez atravessar o mundo à toa, pois Holly é burro mas íntegro. Matar criancinhas? Jamais. Holly é um fracassado com pouca ambição mas e daí? Tudo que ele precisa é de um pouco de Alida Valli na sua vida. Sei como é Holly. Se tirássemos uma foto, ambos estaríamos com a célebre camiseta i'm with stupid. Já Harry, esse é ambição personificada. Ele quer subir essa escada até o topo nem que seja feita de ossos infantes. É puro desejo empreendedor, é o ideal americano, ser o maior, não importa o que seja necessário. Porque lá de cima, onde se acha merecedor, todos não passam de formiguinhas. E formigas em sua irrelevância são quase que como feitas para serem pisadas, mesmo quando dubladas por Woody Allen. E Anna é só mais uma delas. Patife!

Enfim, preparação feita, é hora do clímax. E que clímax, montada completamente com sombras, se isso não é noir não sei o que é, temos uma perseguição espetacular onde se destacam não só a cinematografia mas a vontade quase invencível de Harry Lime de prosseguir. Ele não presta mas contra todos ele se joga (uia) para subir, nem que seja mais um degrau. Se move pelo subterrâneo contra todas as probabilidades em busca da luz. E sua vida, teoricamente, acaba assim, no topo da escada , num esforço inútil mas que ele, Harry Lime, nunca deixaria de fazer. Que vilão forte, sua vontade é tão grande que quase torcemos por ele. Mas suas palavras sobre a bela Anna retornam à mente e morre demônio, morre!

Holly, como bom coitado, é periférico. E como todo atrevido, quando tudo está praticamente concluído tenta puxar pra si a glória. Mas o sacrifício honroso é britânico, adeus, neandertal!, eu sigo com a tocha, honrando nossa praticamente extinta prole.

Mais um retorno ao início. Mais um funeral. Mais dúvidas sobre o vilão. Mais Holly levando coice e mais Alida Valli sendo linda. Muito linda. E nada mais adequado que o filme acabar após a passagem de sua belíssima face pelo centro da tela.

Ps: Nunca mais quero escutar uma Cítara na vida, cruz credo...

2 comentários:

  1. Periguete vitoriana?? vitoriano é da época da Rainha Vitória, século 19...

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  2. Sééééééééériooooo?

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