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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Viagem à Itália – Rossellini, por Bruno Alves Ferreira


Dentro de sua baratinha, com o frescor do ar abafado de uma janela fechada lhe turvando os sentidos abalados pelo seu status de turista indefesa na terra de inocentes primatas italianos, Ingrid Bergman e o sr. Testabunda (é o que parece, sejamos francos) tem seu amor conjugal posto à prova pelo poderoso ardor do fazer nada.

Antes de retomar a história deixe-me argumentar um pouquinho sobre esta experiência singular que tanto sou experimentado: fiscal não-oficial da temperatura ambiente. A arte de fazer nada, ou melhor, como gosto de chamar, ficar à paisana sob uma paisagem distante interiorana é uma arte que contém muitas sutilezas. Primeiro, engana-se quem crê que fazer nada é apenas deitar na varanda como nossos protagonistas. O verdadeiro nada faz (só pra variar esta expressão tão íntima do meu ser) sabe que o estado de ócio puro é algo parecido como atingir um transe budista, só que sem o recitar dos mantras e com muito mais efemeridade. A mente deve esvaziar-se, seu ser derreter sob o sol Napolitano, seu corpo deixar-se tomar pela pressão relativa do ar, como um bebê entorpecido pela papinha nos braços de uma tia peluda.

Voltemos ao casal, antes que o leitor mais cinéfilo e menos filosofo perca-se no texto e volte à sua releitura do Pequeno Príncipe. Embora ainda tenha muito a dizer sobre a ociosidade. Ingrid Bergman, só “man” para os íntimos, mete-se nos cafundós deste país pequenucho mediterrânico (dizem que até europeu!) e junto com seu macho e sua testa de rêgo frondosa experimentam pela primeira vez a doce presença única de um ao outro. Peralá, oigalê, oxalá mano! Exclama o leitor incauto e com um vocabulário por demais eclético. Um casal que nunca teve seu “alone time” (inserção automática de expressão estrangeira para arregalar os olhos dos mais impressionáveis)? Como é que pode uma coisa dessa Batimã? Ainda mais com uma beldade com a ms. man ao seu lado? Só com muita dose de lico de cair o pinto, diria o curinga. Mas enfim, é isso. A presença do outro traz consigo dois males. A discussão da relação e o que fazer com ms. man quando se é um eunuco e Pong com entrada para dois jogadores ainda não foi inventado.

Relação discutida brevemente descobre-se algo que deveria ser mais óbvio que a elefantíase na testa do maridão: Não há relação. São um casal ligados através dos outros e quem sabe, casados através das expectativas dos outros (ecos de torneiras de pias de cozinhas britânicas suturam meus ouvidos com suas chamas do social realismo). Quando sozinhos descobrem-se desconhecidos com um rancor quase infinito que só é vencido pelo ímpeto de manterem-se à distância um dos outros. Ele procura fugir do ócio através de... Peralá!

Voltemos ao ócio enquanto a chama ardente (ai meu dedo!) da inspiração reflexiva dos enigmas da vida arde nas minhas entranhas (lá ele). É importante, que na sua atividade de não-atividade, a presença do outro seja eliminada de qualquer forma. De forma rude, dizendo-lhe um sonoro “Vá-te-se embora vade-retro satanás cruz credo da mão boba!” ou de maneira furtiva convidando-o para uma sessão morde fronha das tardes melodramáticas do TCM (Turner Classic Movies, só pra alongar este parágrafo). Também é importantíssimo cessar qualquer estímulo visual e sonoro que possam estimular algum mísero neurônio à cometer uma viagem milisegundos luz na sua massa cinzenta. Escutar música é estimular o cérebro. Então nada de trios mexicanos cantando o tema de Maria do Bairro. A verdadeira ociosidade é uma atividade de baixo custo glicósico. Tornas-te um semi-morto em contato com forças nunca dantes navegadas. Aliás, navegação, taí uma metáfora usada pelos projetos de paisanos que populam esse filme. Chegam à comparar a boa vida de ociosidade ao navegar de um navio, à deriva para onde o vento o levar. Meus filhos que não sabem o que dizem, derivar “il mare” é boiar, e boiar é oferecer resistência, é eliminar glicose preciosa no funcionamento da arte de não funcionar.

Os leitores mais espertos, com uma testa que não pareça a coxa do garoto Michelin como o maridão já notaram que eu não presto. Novamente enchendo a lingüiça com um vigor ímpar. Estou envergonhado e cessarei minhas reflexões por enquanto para me focar unicamente no filme.

Ele procura fugir do ócio atráves da comunhão boêmia (mulé). Ela procura através das cartas (haja paciência pra jogar paciência) e de homens sarados em mármore. Diga-me você leitor quem faz a melhor escolha e digo-te tua opção sexual. Enfim! O que a ms. man descobre é que sua vida é um verdadeiro vazio que aparentemente só pode ser preenchido pelo amor de um rebento. Deduzo isso através das inúmeras grávidas feiosas que apareceram durante o filme. O que o da testa peitoral descobre é que pegar mulher nem sempre é fácil, por mais oferecida que ela seja. Descobriu o Brasil.

Mas o meu tempo se encerra e meus comentários estão apenas começando... supostamente! Nunca confiem numa narrativa em primeira pessoa! Penso no que dizer e o tic-tac (do relógio adorável anta, não a bala) me empurra com tudo para uma conclusão incerta. Afinal, Bruno, tome vergonha na cara e sintetize uma opinião antes do fim desta resenha, me diz meu anjinho amiguinho de nome Vadinho que é personificado por este bigodinho ralo e charmoso.

Te atendo Vadinho! É um filme bacaninha que permite-se abster-se de certas convenções cinematográficas. É como um belo foda-se, ou com elegância, fornique-se para as regras do cinema. É um prazer assistir um filme que se abstêm de irrelevâncias como trama e direção. É um filme para se aproveitar da presença da ms. man em seus museus, vulcões e tumbas, com sua melancolia acentuada pela sua permanente cara de choro. Poxa, não tem pra mim? Pergunta-se ms. man cercada pela morte histórica. A resposta vem só no fim, aonde levada como uma lepre sendo surrado por uma gangue de tartarugas com machados, é socorrida pelo seu maridão e sua testa dentro de uma testa. Melodramaticamente, ou seja, de maneira tosca e irreal, meio kistch, meio brega, tipo assim, sacumé, tudo se conclui com um mudar de temperamento e humores mais mágicos que o cinegrafista que conseguiu enquadrar essa testa do maridão no filme. I love you, bebê! E seremos felizes para sempre. Kracauer concordará, pois chegou a dizer o alemão polêmicuzinho que o final feliz é mais adequado por dar uma sensação de continuidade. Teorias idiotas de lado. É o que recebemos. E tememos com este fim, happy together, pela eventual morte de ms. man esmagada pela testa pantagruélica do maridaço.

domingo, 4 de julho de 2010

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 3)


– A Kind of Loving de John Schlesinger (62)

O filme começa com um casamento, mas não o do protagonista Vic. Embora as agruras da vida conjugal sejam o tema principal do filme e si o casamento de sua irmã. Um casamento que simboliza a felicidade idealizada daquele ambiente. Um casamento repleto de gente feia (é o que mais tem nestes filmes, me sinto em casa assistindo-os) de vocabulário extremamente limitado que não cansam de comentar, ou melhor, reafirmar trivialidades. É um casamento com um tom extremamente kistch mas com um ar de felicidade contagiante que é ambicionado por nosso protagonista. Ele, para um protagonista que vive na pia de cozinha, até que é extremamente confortável com suas origens. Não existe nele o desejo de ultrapassar os desígnios destinados em seu nascimento e sim a vontade conformante de quem só procura tirar o melhor daquilo tudo.

Vic está de olho em uma jovem e logo, com o uso de artifícios ingênuos, consegue chamar sua atenção. Ele sabe que existe algo de muito errado na relação, afinal perto da sua namorada alterna entre o desejo e o repúdio. O que ele repudia é a personalidade vazia e consumista que ela exibe e o que deseja é o sexo posto como seu objetivo supremo. Até que para uma inglesa ela é passável, nota 6,5. Enfim, Vic trabalha na relação por motivos puramente egoístas e físicos. O envolvimento emocional é nulo.

Mas ela engravida. Vic preso nas fantasias de um casamento como o da sua irmã e escravo das vontades impostas pela sociedade decide seguir o caminho moralmente correto e a pede em casamento. Ela chora, ele lamenta, ambos sabem que é um casamento fadado ao insucesso, mas tem que fazê-lo. Uma breve lua de mel com uma sugestão honrosa à ignorância sexual que estava sempre presente na sociedade britânica e o retorno à terra. Vic vai morar com sua esposa na casa da sogra, velha enjoada que o despreza, enfim, uma sogra.

Algo interessante neste momento do filme é que com uma certa boa vontade de cinéfilo fantasistas é possível encará-lo até como uma continuação de A Room at the Top. Os obstáculos que Vic enfrenta, como a sensação de ser um estrangeiro em sua própria casa e o conflito de personalidades entre ele, pobretão confortável em sua origem e elas, burguesas hipnotizadas pela televisão e que buscam felicidade através do materialismo que ele não tem condições de proporcionar.

No clímax do filme, frustrado pelo casamento infeliz e pelo aborto da esposa, Vic revira a cidade num oferecimento de sua alma à Baco retornando completamente mamado pra casa (pois se tem uma coisa que bêbado não esquece é o caminho pra casa... e o mé. Momento propício para uma piada com fins de alongar este documento: Mussum chega no barman e pergunta: - Tem leite de cabra suíça? - Não. - Tem leite de vaca holandesa? - Não. - Então tem leite de ovelha escocesa? - Também não. - DEUS SABE QUE EU TENTEI! ME PASSA UMA PINGA!) proporcionando um autêntico barraco com muita choradeira, muito vômito e muita sogra evidentemente.

Após muita patada de todos os lados em vez de se divorciar mais uma vez Vic se dobra aos desejos da sociedade. Vai fazer funcionar embora seja MUITO óbvio que deste casamento não vá sair nada. Mas tem seu momento de epifania ao concluir que se mudando com a esposa pra uma moradia qualquer nota e tudo fracassar ao menos eles saberão a quem culpar e o que deu de errado.

Ps: O maior terror de um homem é uma sogra de nome Esperança.

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 2)


Odeio essa mulher (Look Back in Anger) de Tony Richardson (59)

O realismo social tomaria a Inglaterra à partir desta obra de Tony Richardson baseada na seminal peça do mesmo nome de um dos precursores dos jovens irados, John Osbourne.

Se em Room at the Top presenciamos um Joe contido em suas maneiras e focado em um único objetivo, aqui podemos ver o que aconteceria com ele se abdicasse (ou sequer tentasse) de sua ascensão por um casamento. O protagonista aqui é Jimmy. Casado com Allison uma mulher que veio da classe média, vivendo em um apartamento minúsculo, vendendo doces durante as manhãs na feira local e tocando jazz nos bares à noite parece ter sua alma tomada por uma raiva infinita. Sua esposa é constantemente vítima de suas acusações e intempéries despejadas eloquentemente segundo após segundo. Quando esta esconde uma gravidez e traz para casa uma amiga que ele odeia, Helena, o vemos inebriado pelo próprio veneno que injeta através de monólogos cruéis. A sua revolta que inicialmente parecia não ter motivos aparentes advém deste elemento vital do movimento, a insatisfação.

Insatisfação de uma vida repleta de perdas, de oportunidades negadas mas que no entanto lhe permitiu ter a educação necessária para compreender o quanto perdia em cada uma das batalhas. Casou-se com uma mulher que aparentemente ama, embora o espectador possa indagar com completa razão se aquele relacionamento não se sustenta apenas graças à luxúria, que no entanto crê que não o conhece verdadeiramente. É britânica mas sua classe diferente a faz filha de uma cultura completamente diferente.

Tem um único relacionamento satisfatório e saudável: Sua amizade com um imigrante irlandês chamado Cliff que se esforça em manter a paz no casamento do amigo. De temperamento ameno e satisfeito com a vida como ela é parece ser seu completo oposto. Mas a raiva sem limites e muitas vezes inexplicável acaba afastando Allison de si e consequentemente Cliff. O que não parece ser um problema já que ela é prontamente substituída por Helena, repetindo tintim por tintim o que mantinha seu relacionamento anterior funcionando. Helena se demonstra enojada por Jimmy durante boa parte do filme, no entanto basta apenas um avanço para ela ceder. É mais um (para Jimmy) relacionamento calcado em apenas atração sexual que ignora amizades e o bom senso.

No fim Allison perde o bebê. Helena e Cliff vão embora e o casal original se vê reunido mais uma vez em uma estação de trem, com um enquadramento com alusões de romantismo. Mas um romantismo que nasce de um desastre que rebaixa Allison ao nível de Jimmy. Ao afirmar que sabe finalmente o que é a perda de um ente querido ela lhe comunica que enfim eles são iguais. Isso permite-os um reconciliamento e o beijo entre as sombras e fumaças (eita país fumaçento). Mas não é um final feliz. Ambos perderam amizades importantes e entes queridos. Ambos terminam a história mais infelizes que começaram. E sem Cliff e sua função apaziguadora que conseguia manter aquela relação funcionando é um casamento que ainda tem tudo para fracassar.

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 1)


– Room at the Top de Jack Clayton (58 ou 59 há controvérsias)

Room at the top pode ser classificado como um filme transicional. Enquanto a história de Joe Lampton e seu desejo de subir na vida à todos os custos exibe elementos que seriam reconhecidos nos futuros filmes do movimento ele ainda se atém à caracteristicas típicas do cinema tradicional britânico dos anos 50.

Joe é um contador atormentado pela divisão social que assola a sociedade britânica. Crescido nos cubículos típicos das comunidades pobres britânicas à todo momento lhe são lembradas as diferenças inerentes relativas aos diferentes berços da vida. Nele existe um desejo de ascensão social que pensa em concretizar através de dois atalhos, duas mulheres distintas. Em uma, mais velha e casada, encontra a compreensão e o amor que lhe ajudam a atravessar o dia a dia. Na outra, jovem herdeira inocente, vê as possibilidades de um futuro bem sucedido aonde suas vitórias não são determinadas pela capacidade financeira de sua família. Determinado em seu objetivo seduz ambas com consequências desastrosas.

Seu verdadeiro amor é Alice, que vive em um casamento destruído pelas constantes escapadas amorosas de seu marido. Alice é uma mulher de personalidade que se vê conquistada pelos avanços de Joe durante momentos de fragilidades. Entre eles nasce um amor verdadeiro empatado pelos segredos inerentes à um caso e dos desejos sociais de Joe. Eles pensam em fugir mas a realidade é avassaladora e a ambição de Joe por demais desmedida. Ambos decidem sacrificar suas vidas por causas diferentes; Joe, finalmente encarando a possibilidade concreta do golpe no baú que tanto planejara decide sacrificar uma vida de dificuldades mas feliz pelos encantos do dinheiro. Alice se vê perdida em uma prisão construída meticulosamente pelo seus ex-marido que se recusa a deixá-la. Seu único suporte emocional lhe deixa e assim também sua vontade de viver. A liberdade e a felicidade que tanto ambicionara nunca lhe chegariam. Joga a sua vida fora para a surpresa de um Joe abasbacado com as próprias escolhas erradas que seu sonho o levou a cometer. O filme termina com um casamento, um emergente e uma herdeira rumando à uma aparente vida de felicidade conjugal. Mas os últimos momentos dos filmes nos permitem enxergar um Joe desmascarado pela sua própria culpa, aonde seus olhos no contam tudo.

O protagonista poderia ser considerado um protótipo dos que viriam a seguir. Sua classe baixa não é sinônimo de ignorância e permitem-lhe enxergar o mundo como o é, uma sangrenta luta de classes. Sua reação é mais fria e sistemática que seus herdeiros. Só permite-se expressar-se de verdade em companhia de Alice. Ou não. Em uma cena o vemos gritando com ela “I'm working class and proud of it”. O que poderia soar como um moto deste movimento cinematográfico pela voz de Joe soa como uma desilusão. Nem ele mesmo acredita em si, senão não tentaria tanto escapar de suas condições que supostamente tanto se orgulha. Enquanto veremos nas outras obras os protagonistas agirem de maneira desesperada e emocional, Joe se esforça em manter-se controlado de toda a forma, mantendo a maquiagem de bom moço necessária ao seu enriquecimento.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

"Passage to India" (David Lean), por Bruno Alves Ferreira


"Que cafonice! Tá precisando de um personal stylist!"

As confusões muito loucas entre duas galerinhas do bem que não conseguem se entender. Logo após Passione...

Em Passage to India David Lean e E.M. Foster analisam o efeito do imperialismo nas relações entre dois povos de cultura distinta. A conclusão é óbvia. Os colonizados não gostam dos colonizadores e seu cheirinho de hipogloss pra conter tanta ardência e os colonizadores se acham melhores que a paisanada e seus ritos e rituais ritualísticos (radical: rit).

A chegada de Sra. Moore e Srta. Quested, duas cabritas inglesas com maneiras impecáveis e chapeizinhos que são uns mimos de meiguice, serve de estopim para enfatizar o preconceito inerente em uma relação sadomasoquista em que nenhum dos dois gosta de apanhar.

Chegando à Índia (mas não de passagem...) Sra. Moore desafia os preconceitos de sua sociedade reacionária e come algumas bananas com um vigor especialmente direitista, não exatamente nesta ordem, e acaba fazendo amizade com um dos nativos, um médico chamado Dr. Aziz. Ela é compreensiva, ele é ingênuo, ela é experiente, ele quer impressioná-la, ela é viúva, ele também. O que poderia se tornar um belo romance com ares progressistas (ou como os jovens de hoje em dia gostam de dizer: prafrentex) com uma prática graciosa do Kama Sutra aos sons de sutras e macaquinhos pinguços e levados acaba se tornando uma verdadeira tragédia quando a companheira de viagem da Sra. Moore, uma tal de Srta. Quested uma reprimidinha sexualmente que apesar de todos no filme a chamarem de feinha (bando de falaciosos, nem precisaria de caninha... belos olhos... Mas Allida Vali, cocotinha, não se chateie você vence de lavada em todo o resto) até que dá prum caldo, confunde(?) os comichões que sentia ao observar o virginal Aziz com uma tentativa de estupro muito misteriosa. E aí amiguinhos, como acabará esta aventura?

Esta crítica (eita!) não terá spoilers desta vez. Arranjem o filme, posicionem-o no dvd com o carinho e delicadeza de um auto-exame de próstata e se maravilhem com as belas imagens capturadas por Lean (felizmente ele não era gordo, senão seria de uma ironia britânica) que ilustram esta historinha qualquer nota de E. M. Foster.

Sou da opinião de que um estrangeiro não deve escrever sobre um país em que não viveu. Calma amigos, só porque tenho pendor para a alta literatura, tomo chá (de uma ervinha mimosa da família paunokultis) às cinco e tenho um ego mais inflado que o mojo de Austin Powers... não quer dizer que eu seja o quê mesmo? Perdi meu raciocínio... E achei-lo, logo aqui, atrás do meu O Ser e o Nada de Sartre que uso como descansa... er... livro de cabeceira. Sigam meu raciocínio e minha labuta para encher este provolonaço.

Por mais isento de preconceitos que ele seja é inevitável que não consiga transmitir a personalidade de um verdadeiro habitante ou a sensação do que é ser naquele ambiente. Há detalhes que enriquecem a caracterização de um personagem que somente são adquiridos com uma forte experiência nativa. Não basta um sulista enfiar (mas com carinho) um oxente na boca de veludo de algum travesti que habita as noites de boa viagem que ele será realmente um personagem nordestino. E não basta colocar (de dentes trincados) um tchê na boca de um cabra omi que ele será gaúcho. A não ser que seja fantasia que é um gênero que se permite dar vida a todos os tipos de mitos. Enfim, falta tridimensionalidade aos personagens porque o autor não consegue separar a construção de um ser humano conterrâneo de um ser estrangeiro e o que acontece? Vamos a este caso!

Se o estrangeiro é bem escrito ele é um inglês nas peles de um indiano, senão ele é apenas um símbolo. Como (lá ele) Aziz: é médico, só que mais inocente que o Cebolinha. Ele simboliza o bom selvagem, pacato, que só tem a oferecer louco para impressionar seus senhores. É o famoso protagonista guarani (Zé diAlencar que se exploda...), idealização de um nativo na visão elevada do seu abolicionista que se deleita no colchão imperial. O velho é símbolo da religiosidade e da sapiência misteriosa dos indianos, fulaninho é símbolo dos revoltosos. Os personagens mais tridimensionais acabam sendo mesmo o trio inglês que... Ops, acabou o espaço!

Durmam com a dúvida se esta desculpa é verdadeira ou se a preguiça que bateu me impedindo de concluir um pensamento que talvez não chegasse a lugar nenhum. Ou não! Durmam com essa bronca!

Ps: Pegue leve prófi!

sábado, 29 de maio de 2010

"Um Gosto de Mel/A Taste of Honey (1961)" por Bruno Alves


Spoilers a rodo.

Queridos leitores (sim, fingirei que mais de duas pessoas, contando o que vos redige, vão ler isto), vocês já passaram pelo fatídico e triste momento aonde tinham que escrever algo e no entanto não conseguiam? É a minha situação, amigos. Preciso escrever uma resenha de Um Gosto de Mel e no entanto não sai nada do meu pequenino mas esforçado intelecto. Estou com calor, fome e sono. Maldição. Perambulo pelo apartamento nesta quieta madrugada em busca de inspiração. Procuro um biscoito treloso para ingerir e nada encontro. Maldição. Deito no sofá para meditar o texto e acordo duas horas depois sem texto e com a coluna partida em quatro partes. Maldição. Vou ao banheiro lavar o rosto, acordar os sentidos. Me sinto como o protagonista de algum péssimo romance de Stephen King (desculpem o pleonasmo), mais um escritor fracassado sofrendo de um infame writer's block e assombrado por um espelho que insiste em mostrar uma verdade inconveniente: Meu rosto. Maldición.

Se engana o leitor que acha que essa introdução foi apenas para enrolar, enrolar, enrolar e botar o contador de palavras a girar, girar e girar. Não apenas isso, embora o leitor mais atento certamente notou que não havia a mínima necessidade de repetir três vezes os verbos da oração anterior, anterior, anterior. Sua função foi dupla. Também serviu para em minha auto-depreciação costumeira incorporar a personagem principal. Acho que está funcionando...

É bem esquisito, não apenas meu rosto mas esta sensação de se olhar no espelho e achar que há algo de errado com você. Imagine neste triste mundo monocromático que nossa protagonista Jo habita. Com duas bolas de gude (das buchudas) de olho, bocuda e um jeito moleque é uma deslocada natural. Sua mãe é promíscua, canta como se tivesse engolido um galão de hélio e nunca deu bola para nossa protagonista. Estão presas em um ciclo de insultos e tréguas, insultos e tréguas, insultos e tréguas (três vezes?!) que nunca se acaba. De casa em casa, sempre fugindo do fantasma do aluguel, não tem onde criar raízes e adquirir aquela segurança necessária para o crescimento saudável de qualquer pessoa. Sente uma carência natural nunca suprida por ninguém até a aparição supostamente fortuita em sua vida de seu príncipe Ossini (Jimmie para os íntimos), direto de um palácio luxuoso nas savanas de algum misterioso país da África, posando de descascador de batatas de um navio da marinha ele é a primeira fonte de afeto relativamente estável na vida da nossa feinha protagonista. Logo, logo, logo (três denovo?! Preposterous!) uma precoce paixão se forma e em pouco tempo estão trocando juras de amor e promessas de casamento.

Solidão é uma constante na vida de Jo e está prestes a se tornar permanente. Sua mãe, velhinha cheia de aforismos existencialistas, está prestes a se casar com Peter, boêmio com olho de vidro e uma tara por figuras maternas. Édipo ficaria intrigado. Infelizmente o conflito de personalidades entre Peter, o bebum edipiano de mão boba e nossa protagonista com suas pitombas que lhe encaram a alma, tudo chega à um prevísivel impasse... ou ela ou ele. Sua mãe não decepciona as baixas expectativas que já tínhamos dela e escolhe o óbvio ululante para alguém do seu quilate. É uma chance de ouro para recomeçar! Pois vá para o raio que te parta Jo mas antes um dinheirinho pro ônibus querida, quer que eu te acompanhe até o ponto? Grr....

É neste estado que Jo se entrega à Ossini que partirá no dia seguinte. Mas o futuro não importa, Jo só quer se sentir amada, mesmo que à beira de um rio fedorento, num chão seboso embaixo de um céu cinza tom grafite...

Larga a escola e começar a trabalhar numa sapataria, aluga um vasto apê caindo aos pedaços e inicia uma terna amizade com Geoffrey, sua primeira venda bem sucedida e homossexual sem teto. Jo rapidamente lhe chama para compartilhar moradia. Geoffrey é outro bicho esquisito, não apenas pelas características já citadas que não o faz ser o cara mais popular entre as senhoras conservadoras da Inglaterra dos anos cinquenta... e sim pelo valor simbólico do personagem. Ele é o verdadeiro amor que nunca houve na vida de Jo. É o amor incondicional sem nada a exigir, que mesmo pisado e chutado inúmeras vezes pela língua venenosa de Jo e suas alternâncias de humor, nunca desiste de oferecer-lhe o afeto que tanto necessita.

É o verdadeiro gosto de mel na vida miserável de nossa protagonista. Geoffrey é tão bom que chega a cogitar em sacrificar sua sexualidade pelo futuro filho de Jo (spoilers galore!). Caramba Geoffrey, você é o cara. Acho que se cada pessoa no mundo tivesse um Geoffrey só para si (lá ele) não haveriam pessoas tristes no mundo. Mas o retorno de uma velha coroca e a já citada gravidez jogam uma bigorna pesadíssima na bela amizade. Enfim, Um Gosto de Mel se passa no mundo real, onde contos de fadas não existem e nossa protagonista não quer ser mãe, muito menos solteira. Aonde o único herói do filme é expulso de casa e não se impõe à vilã existencialista. Aonde tudo acaba em uma ambiguidade... em uma incerteza angustiante.

domingo, 18 de abril de 2010

"O terceiro homem" por Bruno Alves Ferreira


A verdadeira estrela do filme.


Cuidado, pode conter spoilers.

Assisti O Terceiro Homem pela primeira vez após duas madrugadas em claro e tenho que admitir que dormi lá pelos 40-60 minutos de filme perdendo a oportunidade de uma experiência completa. Peraí eu conheço essa música. Alguns elementos do filme conseguiram me tocar (lá ele). Primeiro a beleza séria e exuberante de Alida Valli que interpreta Anna Schmidt. Ô mulher linda. Linda no luto pelo infame Harry Lime. Linda na labuta glamourosa com sua peruca e vestuário de piriguete vitoriana, linda em sua risada burlesca ich, ich, ich e linda rejeitando o mané do protagonista. Sim, estou falando do autêntico coitado Holly Martins, escritor de faroestes capengas e galã de terceira, que tenta de todas as formas seduzir a namorada do seu recém-falecido amigo. Não deixou nem o corpo esfriar. É assim mesmo, independente de tempo e lugar “amigo” fura-olho sempre existirá.

Este fracassado chega na forçadamente cosmopolita Viena pós-segunda guerra atrás de um trabalho prometido pelo seu “old pal” Harry Lime. Mas como autêntico pato Donald de sobretudo que é, chega logo após um acidente em que o mítico Harry (que merece admiração só pelo feito de capturar o coração de Anninha) morre cercado por seus suspeitos amigos, sem um puto na mão e tendo que se dobrar ante aos ingleses pra voltar pra casa. Quem mandou passar debaixo de escada. Boo, Holly Martins, Boo! Eis que outro mané lhe dá a oportunidade de alguns dias de permanência onde o “maioral” alterna entre suas intrépidas investidas amorosas solenemente pisadas e esmagadas com decoro e um olhar frio mas hipnótico dessa deusa da beleza, ser empurrado de um lado por outro por estrangeiros cada vez mais insólitos em suas tentativas risíveis de investigação, e ser feito um autêntico yankee bitch pelos todo-poderosos ingleses(mais em alguns parágrafos). Boo!

Poderia até simpatizar com o personagem se ele desse a oportunidade. Confuso em uma terra estranha onde não entende pitombas do que lhe falam, de gente suspeita, de mercados negros, de olhares em soslaios, de intelectuais querendo sua opinião sublime de homo habillis sobre fluxo da consciência e James Joyce, espancado fisicamente pelo seu primo evolucionário mais forte o neandertal (e consequentemente fã de seus livrinhos) Sargento Paine e levando bordoadas verbais do Major Calloway que tem uma personalidade de verve britânica mas cara e bigodinho de francês, envolvido em algo bem maior que ele, autêntico cego em tiroteio. Mas ele não largava o osso. Deixe a bela Anna em paz, rapaz! Não aguento mais essa música. Dormi. Sonhei com uma velha desdentada que não calava a boca. Da onde será que vem essas imagens sombrias que pairam em meus sonhos?

Nova abordagem. Histórica. Graham Greene e Carol Reed traem suas origens. Os
americanos são intrépidos e atrevidos. Mas um é fracassado e outro é bandido. Os britânicos são os cool e descolados. São eles que botam ordem na no pardieiro. Se estudassem na UFPE estudariam no CAC e atrairiam olhares de inveja dos outros departamentos que argumentariam, “É assim, agora, mas quero ver só quando se formarem, há, há! Hippies...”. Os vienenses suspeitos. Tão suspeitos que o enquadramento até se inclina durante as conversas, vejam só que perturbador. Tão suspeitos que um tem cara de capeta, usa gravata borboleta com bolinhas coloridas, carrega um daqueles cachorrinhos abusados e cheio de não me toques popular com as madames da alta sociedade, echarpe de pelo, provavelmente de algum animal bem raro e em extinção, dando mais pinta que Ronaldo Esper no superpop. Já falei que ele sorrindo parece um capeta? Já né. E ninguém acha estranho! Tem gente que até janta com esse capetinha tocando violino ao lado! E o médico que não sabe cortar nem peru de natal e peraí já vi esse cachorro? E que diabos de nome é Popescu? Se me falam isso eu respondo: “Sua mãe!”. Holly Martins também, provavelmente. E os russos... Uma ameaça misteriosa que paira sobre todos, são aqueles que não devem ser nomeados, sua área da cidade é uma terra de ninguém onde até o poder da mão controladora dos almighty british não consegue se estender. Cara, que música chata!

Tudo envolto em sombras que se projetam agouradamente sobre os personagens, escadas com corrimões tremelicantes e criancinhas adoráveis jogando bola. E a presença inebriante de Anna Schmidt. Assim como esta resenha o início do filme é assim. Roda, roda, roda, roda e não parece sair do lugar. Tudo retorna ao início, à Alida Valli, quer dizer, ao acidente. Tem algo de muito estranho nesse acidente e como avisei lá vem a bomba! Harry Lime está vivo! Tentei imaginar-me na platéia durante a estréia do filme na antológica cena da grande revelação entre gritos de bloody hell e great scott! Infelizmente assisti em 2010 e a permanente menção da presença de um Orson Welles de sorriso todo maroto me estragou essa oportunidade catártica.

Tudo muda. Enfim o filme engrena, caminhando para o famoso clímax. Mas antes uma comparação. Devo admitir que com a ressurreição oportuna de Harry até que senti pena do coitadaço Holly. Seu tão idolatrado amigo lhe fez de mais besta que já é. O fez atravessar o mundo à toa, pois Holly é burro mas íntegro. Matar criancinhas? Jamais. Holly é um fracassado com pouca ambição mas e daí? Tudo que ele precisa é de um pouco de Alida Valli na sua vida. Sei como é Holly. Se tirássemos uma foto, ambos estaríamos com a célebre camiseta i'm with stupid. Já Harry, esse é ambição personificada. Ele quer subir essa escada até o topo nem que seja feita de ossos infantes. É puro desejo empreendedor, é o ideal americano, ser o maior, não importa o que seja necessário. Porque lá de cima, onde se acha merecedor, todos não passam de formiguinhas. E formigas em sua irrelevância são quase que como feitas para serem pisadas, mesmo quando dubladas por Woody Allen. E Anna é só mais uma delas. Patife!

Enfim, preparação feita, é hora do clímax. E que clímax, montada completamente com sombras, se isso não é noir não sei o que é, temos uma perseguição espetacular onde se destacam não só a cinematografia mas a vontade quase invencível de Harry Lime de prosseguir. Ele não presta mas contra todos ele se joga (uia) para subir, nem que seja mais um degrau. Se move pelo subterrâneo contra todas as probabilidades em busca da luz. E sua vida, teoricamente, acaba assim, no topo da escada , num esforço inútil mas que ele, Harry Lime, nunca deixaria de fazer. Que vilão forte, sua vontade é tão grande que quase torcemos por ele. Mas suas palavras sobre a bela Anna retornam à mente e morre demônio, morre!

Holly, como bom coitado, é periférico. E como todo atrevido, quando tudo está praticamente concluído tenta puxar pra si a glória. Mas o sacrifício honroso é britânico, adeus, neandertal!, eu sigo com a tocha, honrando nossa praticamente extinta prole.

Mais um retorno ao início. Mais um funeral. Mais dúvidas sobre o vilão. Mais Holly levando coice e mais Alida Valli sendo linda. Muito linda. E nada mais adequado que o filme acabar após a passagem de sua belíssima face pelo centro da tela.

Ps: Nunca mais quero escutar uma Cítara na vida, cruz credo...