Mostrando postagens com marcador tony richardson. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tony richardson. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de julho de 2010

I’ll come back for the honey, por Ingrid Maiany


Desde a primeira cena de “A Taste of Honey”, sabemos que Jo (Rita Tushingham) é uma espécie de Pollyanna da sétima arte. Inquirida por uma amiga do colégio se irá ao baile, ela diz que não pode ir, porque não possui um vestido e terá que se mudar novamente com a mãe. Mas sua melancolia visível não é duradoura. Em instantes, ela se distrai com uma bolha de sabão que faz nascer de suas mãos envoltas de espuma e abre um sorriso.

O filme inteiro é assim. Tony Richardson está cena após cena deixando um gosto de mel no espectador através de uma personagem de grandes olhos escuros que vão fundo na gente. O longa é, para mim, a dramatização de um trecho de um escritor brasileiro que gosto muito – e que cito sempre – que diz assim: “Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.”

Jo repete isso sete, oito, nove, dez vezes e quantas mais precisarem. Filha de uma mulher pobre e com uma carência enorme de uma presença masculina (Dora Bryan) – de modo que costuma trocar de namorados como quem troca de roupas apenas para não ficar sozinha – Jo desenvolve um humor irônico, sarcástico e, talvez por isso mesmo, encantador. E então entendemos porque o marinheiro negro vivido por Paul Danquah se apaixona pela menina que chega machucada e triste em seu navio. E entendemos porque Jo se apaixona por aquele homem tão diferente dela – em cor e idade – que cuida de seu ferimento como se fora seu pai.

E ambos se entregam a um amor puro, com sexo sob céu estrelado e aliança de ouro. Doçura nos toques, nos sorrisos, nos olhares, nas palavras. Doçura que salva Jo quando sua mãe a abandona para se casar com um homem mais novo. Porque a questão de idades é um tema forte nesse filme de Richardson. Assim como o relacionamento interracial. O diretor faz tudo de forma tão natural que parece nos dizer: “coloquem um torrão de açúcar nessa mesquinhez amarga que é achar que existe bonito e feio, certo e errado, centro e periferia!”. E nós colocamos. Durante todo o filme, repensamos nossos valores, encaramos nossos preconceitos mais velados e concluímos: “como somos umas antas!”

Pois eu estava em minha condição de anta quando a vida veio dilacerar Jo novamente. O marinheiro vai embora com seu navio e deixa a protagonista grávida e sozinha. Mas como é mesmo aquela canção de Bobby Scott e Ric Marlow homônima ao filme? “I will return/ Yes, I will return/ I'll come back/ (he'll come back)/For the honey/ (for the honey)/And you”. Bom, se o marinheiro volta pra Jo como promete, fica em aberto. Ela, contudo, volta para seu mel. E ele vem calçado nos sapatos da moda.

Para se manter, Jo arruma um emprego em uma sapataria. E eis que ela conhece Geoffrey (Murray Melvin). A sintonia entre os dois é imediata, embora o contato seja breve. Mas o destino parece querer da uma mãozinha a mocinha de Richardson. Os dois se reencontram em um desfile cívico e, vendo que o rapaz não tinha para onde ir, Joe a convida a morar com ele.

Nasceria aí uma grande amizade – meio uma relação de mãe e filha. O rapaz, homessexual, cuida da casa enquanto Joe trabalha. Ele é o amparo, o carinho que ela nunca sentiu na personagem de Dora Bryan. E o relacionamento dos dois é a coisa mais bonita do filme – que é lindo em totalidade. A cena da gruta, um novo carpe diem, nos faz refletir sobre a efemeridade, sentimos uma nostalgia do próprio presente e chegamos mesmo a nos questionar “será que é mesmo possível transformar todo limão em limonada?”.

O fato é que Tony Richardson é, na verdade, um romântico. Por trás das questões sociais que aborda, dos bairros proletários com crianças correndo, da mãe ausente, do filho sem pai e da amizade que se aparta, ele quer nos mostrar que a vida sempre pode melhorar – e não o contrário. E nisso o final do filme é antológico.

Desiludida pela ausência do amigo querido, Jo observa os garotos que festejam ao redor de uma fogueira, quando uma menina lhe oferece uma estrelinha. Com aquelas faisquinhas saltitantes nas mãos, a protagonista é “A Pequena Vendedora de Fósforos”, aquecida com a chama da estrelinha na solidão da noite. O plano fecha no fogo de artifício. Luz no fim do túnel? É, Richardson, acho que nem o Ursinho Pooh (que nos meus tempos de criança era Puff) gosta tanto de mel.

domingo, 4 de julho de 2010

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 2)


Odeio essa mulher (Look Back in Anger) de Tony Richardson (59)

O realismo social tomaria a Inglaterra à partir desta obra de Tony Richardson baseada na seminal peça do mesmo nome de um dos precursores dos jovens irados, John Osbourne.

Se em Room at the Top presenciamos um Joe contido em suas maneiras e focado em um único objetivo, aqui podemos ver o que aconteceria com ele se abdicasse (ou sequer tentasse) de sua ascensão por um casamento. O protagonista aqui é Jimmy. Casado com Allison uma mulher que veio da classe média, vivendo em um apartamento minúsculo, vendendo doces durante as manhãs na feira local e tocando jazz nos bares à noite parece ter sua alma tomada por uma raiva infinita. Sua esposa é constantemente vítima de suas acusações e intempéries despejadas eloquentemente segundo após segundo. Quando esta esconde uma gravidez e traz para casa uma amiga que ele odeia, Helena, o vemos inebriado pelo próprio veneno que injeta através de monólogos cruéis. A sua revolta que inicialmente parecia não ter motivos aparentes advém deste elemento vital do movimento, a insatisfação.

Insatisfação de uma vida repleta de perdas, de oportunidades negadas mas que no entanto lhe permitiu ter a educação necessária para compreender o quanto perdia em cada uma das batalhas. Casou-se com uma mulher que aparentemente ama, embora o espectador possa indagar com completa razão se aquele relacionamento não se sustenta apenas graças à luxúria, que no entanto crê que não o conhece verdadeiramente. É britânica mas sua classe diferente a faz filha de uma cultura completamente diferente.

Tem um único relacionamento satisfatório e saudável: Sua amizade com um imigrante irlandês chamado Cliff que se esforça em manter a paz no casamento do amigo. De temperamento ameno e satisfeito com a vida como ela é parece ser seu completo oposto. Mas a raiva sem limites e muitas vezes inexplicável acaba afastando Allison de si e consequentemente Cliff. O que não parece ser um problema já que ela é prontamente substituída por Helena, repetindo tintim por tintim o que mantinha seu relacionamento anterior funcionando. Helena se demonstra enojada por Jimmy durante boa parte do filme, no entanto basta apenas um avanço para ela ceder. É mais um (para Jimmy) relacionamento calcado em apenas atração sexual que ignora amizades e o bom senso.

No fim Allison perde o bebê. Helena e Cliff vão embora e o casal original se vê reunido mais uma vez em uma estação de trem, com um enquadramento com alusões de romantismo. Mas um romantismo que nasce de um desastre que rebaixa Allison ao nível de Jimmy. Ao afirmar que sabe finalmente o que é a perda de um ente querido ela lhe comunica que enfim eles são iguais. Isso permite-os um reconciliamento e o beijo entre as sombras e fumaças (eita país fumaçento). Mas não é um final feliz. Ambos perderam amizades importantes e entes queridos. Ambos terminam a história mais infelizes que começaram. E sem Cliff e sua função apaziguadora que conseguia manter aquela relação funcionando é um casamento que ainda tem tudo para fracassar.

sábado, 3 de julho de 2010

“Me used to be angry young man…” ?, por Marina Paula



Pompa. Polidez. Disciplina. Reverência. São estas algumas das palavras que nossos conhecimentos sobre certas figuras e produtos ingleses nos fazem mais facilmente vincular aos costumes daquele país. No entanto, não é preciso ir muito longe para encontrar uma quebra com este sentimento de nação imaculada e hegemônica. É exatamente o que se vê quando um cineasta decide confrontar, usando imagens de uma tonalidade realista, o peso da tradição e da rigidez com a força de uma juventude contestadora, que começava, cada vez mais, a ganhar voz e corpo ao redor do mundo; É o que faz A solidão da corrida sem fim, filme de 1963, dirigido por um dos pioneiros da “nova onda” britânica.

Se o formato de uma leva de filmes de caráter inquestionavelmente institucionais ganhara seu lugar nos pátios e salas de aula das escolas inglesas, o filme de Tony Richardson não vai se utilizar de um espaço muito diferente para questionar os mesmos valores da moral britânica outrora festejados em cenários como o de Adeus, Mr. Chips (1939). Para tanto, em vez do colégio interno, o cenário é deslocado para uma casa de ressocialização, onde o papel dos alunos é ocupado por uma horda de jovens irados, vindos, em sua esmagadora maioria, da classe operária e que por necessidade ou rebeldia (que no filme, parecem até indissociáveis) acabaram se envolvendo com a criminalidade.

No reformatório Ruxton Towers, o foco está sobre Colin Smith (Tom Courtenay), o mais velho de uma família inglesa de quatro filhos, preso por roubar uma padaria. Apesar de assumir uma postura subversiva, a figura de Colin não invoca ares de total irresponsabilidade, como poderia parecer. Ao contrário, suas ações parecem sempre extremamente conscientes e jamais são questionadas por qualquer tipo de arrependimento ou “moral cristã”. O personagem assume a postura de quem tem o direito, quase o dever, de praticar tais ações – uma espécie de Robin Hood moderno – na própria cidade de Nottingham, berço da lenda –, mas sem a parte da distribuição dos bens ao fim (o que poderia até ser justificável se usássemos como argumento que ele mesmo é um necessitado).

Assistimos, então, a chegada de Colin ao reformatório e o seu processo de adaptação naquele ambiente. Após os primeiros encontrões com a direção, ele começa a aceitar e a se envolver cada vez mais no cotidiano da prisão. A habilidade para o roubo, segundo o próprio personagem, já era havia muito repassada de pai para filho, sendo o costume de correr da polícia o que mais tarde viria lhe possibilitar uma chance de mudar de vida. É através de uma narrativa não-linear que vamos conhecendo a sua vida anterior.

Mesmo após a morte do pai, quando teoricamente deveria assumir o posto de chefe da família, Colin recusa-se a procurar um emprego por não aceitar desperdiçar o seu suor apenas para a prosperidade dos patrões.

Exatamente por essa insubordinação e fortes tendências comunistas não só do protagonista, mas do discurso do filme em sua totalidade, ele recebe o subtítulo “Rebel with a cause”, indo propositalmente de encontro ao título original do clássico americano, Juventude Transviada (Rebel without a cause, 1955), transformando-o assim, em um exímio representante do que de melhor a postura de seu protagonista, um autêntico “angry young man” poderia nos oferecer, um culto à rebeldia.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A loucura hereditária, por Milena Wanderley



“Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?”
Cecília Meireles

A infância é a fase da vida que nos traz as lembranças mais doces, e esse sabor perdura dentro de nós até perdermos a inocência que habita a criança. Entretanto nem todos temos a oportunidade de provarmos desse mel, a vida muita vezes pode nos ser amarga desde sua epigênese e as lembranças dos tempos em que sonhos pairavam como bruma diante dos olhos infantis passam a não ser características constitutivas das crianças, e elas, quando crescem, parecem abrir grandes olhos pra dentro de si, porque quando não se conhece o sonho passa-se a vivê-lo sem consciência de que o é, assim surge o não-convencional, as diferenças de olhares sobre a vida que, para aqueles que não habitam o plano do onírico, é difícil de ser reconhecido, pois olhos já estão viciados pelos padrões estabelecidos pela sociedade moderna, industrializada, capitalista, pesada.

Ao contrário de mel, Jô prova do chumbo, e tal peso aparece metaforizado em várias cenas, mas como estamos no começo desse humilíssimo comentário acerca da obra de Richardson, será conveniente nos trazer a primeira passagem em que ela, numa escola tradicional para meninas inglesas, aparece desajeitada tentando segurar uma bola que não lhe para nas mãos como fosse sua própria vida escapando por entre os dedos.

A testa franzida, o olhos grandes, claros e profundos, o rosto redondo, o corte de cabelo desajeitado e andrógeno, a boca pequena e os dentes curtos montam uma expressão de opressão diante da infância perdida, Jô é quase o “EU” escondido de todos aqueles que sofreram algum tipo de violência na infância e tem que lidar com tal fato pela vida inteira.

Ela e a mãe se suportam e vivem um relacionamento doentio de inversão de papéis e valores, em que Jô não tem direito de viver o que é natural para as meninas de sua idade. Ela, sem identidade ou referência, vive o onírico para fugir do real e em sua carência deixa-se possuir pelo primeiro que lhe parecera o príncipe encantado, e faz-se assim por reprodução: a filha que rejeita o comportamento da mãe, mas ao mesmo tempo o reproduz em um complexo de Electra sem referências masculinas. E a genialidade de Richardson neste filme reside na sutileza das intenções, nas entrelinhas dos diálogos, na trilha sonora infantil que junto às imagens remete ao paradoxo que era a vida de Jô com a sua mãe, uma personagem muito bem construída que traz a referência à vontade de ser eternamente jovem.

A omissão e a boemia são substantivos que definiriam bem as iniciativas de Helen, mulher madura que aceita um casamento em que o companheiro rejeita sua filha, que, por sua vez, passa a viver sozinha, sem a presença física da mãe, já que a psicológica se tinha ido embora junto com a palavra “mãe” que Jô não pronunciava.

Uma das cenas que mais sinalizam a inversão de valores é a que Jô acompanha sua mãe e o pretendente dela, Sr. Smith, ao parque de diversões. Os exageros das expressões dos atores nas cenas, as risadas de boca aberta, o andar por vezes cambaleante e as muitas pernas caminhando em uma mesma direção remetem à ilogicidade da vida de Jô que mesmo em ambiente destinado ao divertimento aparenta fragilidade e tristeza, se comporta como a criança que era mas não tinha direito de ser, enquanto sua mãe esbalda-se junto aos outros adultos nas atrações do parque; e é neste dado momento que sua mãe a deixa de vez, pois diante das infantilidades de Jô, o Sr. Smith pede a Helen que escolha entre ele e sua filha. Assim, a menina perde a única referência de mulher que tinha.

A incerteza, o não estar, a ausência e a superficialidade dos desejos são tônicas do enredo de A taste of honey, o fato de Helen estar sempre se mudando e ausente na vida da filha leva Jô a um espaço de nulidade que permeia suas atitudes e olhares diante das paisagens que se colocam a sua frente, pois não são poucas as tomadas em que a cidade é mostrada pelo prisma das mazelas causadas pela industrialização, uma delas caracterizadas, inclusive, na vida da personagem principal que está à margem da sociedade, tudo aparenta estar virado de cabeça para baixo em uma bagunça que parece não mais ter possibilidade de ser ordenada; vive-se um caos interior que é amenizado em Jô através do pouco cuidado que o marinheiro tem para com ela, porque quando não se tem quem se cuide, até um olhar de mais de três segundos pode convencer um coração perdido, e um carrinho ou um anel são sinais concretos suficientes para convencê-la de que o marinheiro a amava, assim Jô se entrega.

Ao entregar seu corpo ao marinheiro que vai embora e sua mãe abandoná-la a própria sorte, Jô encontra um emprego numa sapataria e se muda para uma casa construída com madeira, contudo bem maior do que o quarto que dividia com sua mãe, e ao vender um sapato conhece Geoff, garoto afetado que a convida para ir ao parque de diversões, nesta oportunidade ela se diverte e até ganha um peixinho que leva para casa. Agora ela é “um peixe dentro d'água” e compartilha de sua realidade com quem ela escolheu para o fazer. Ao perceber que Geoff não tinha para onde ir, o convida para acompanha-la e entrar na sua casa e, desajeitadamente, o convida para morar com ela já que ele também se encontrava numa situação de exclusão; ambos procuravam quem quisesse bem um ao outro, assim Geoff e Jô passam a viver como irmãos.

A natureza feminina também é questionada na obra de Richardson, pois insistindo na simbolização dos valores que são invertidos, Jô aparece agora grávida do marinheiro que foi embora, completando o quadro de marginalização que se agrava ainda mais quando ela sente medo de que a criança que carrega tenha algum tipo de alteração genética. A impressão é a de que Jô acredita, desde o início do filme, ser consequência da “loucura” de sua mãe como se seu estado mental fosse hereditário, uma carga genética que destinava suas ações re produtivistas. Desta forma, quando Jô via a criança com síndrome de down, enxergava a si mesma e sentia medo de que o bebê que carregava tivesse o mesmo destino que ela. Entretanto, é nesse momento de confusão interior que Jô parece ter encontrado sua identidade, são nesses espelhos de imperfeição que ela encontra o sentido de si mesma, e um desses reflexos é transmitido por Geoff que passa a se responsabilizar por ela, e embora o ciclo se repita como brincadeira de roda, com a volta de sua mãe que havia sido expulsa do casamento, Jô parece encontrar-se novamente na infância, e na última cena, em que ela desce da casa para Procurar Geoff que havia sido expulso por Helen, ela acende uma estrelinha e se comporta como a criança que ficou perdida dentro dela mesma diante dos fatos que marcaram o seu relacionamento com sua mãe.

Com um final aberto, Richardson, incita-nos ao questionamento e a imaginação, porque o que parece ter prioridade em A taste of honey é a expressão de inquietações universais, característica que torna seu discurso atual e arrebatador para aqueles que são mais sensíveis às vozes interiores independente do gênero de tal voz, todas as cenas podem dizer muito para quem tem os olhos libertos dos vícios de discursos alheios, por isso antes dos rótulos e do discurso pré concebido precisamos ter o visionarismo do experimento, deixando-nos ao sabor do novo, mesmo que para nós o sabor seja amargo, mesmo que diante dos espelhos significados em Jô tenhamos que minguar os nossos egos ocupando os espaços de nulidade diante das forças que o homem pensa que controla.

Mães, filhas, negros e gays, por Annyela Rocha




Um Gosto de Mel (A Taste of Honey, dir. Tony Richardson, 1961) conta a história de Jo. E Jo não é bonita. Jo não vive bem. Jo não está buscando um grande amor. Ela é apenas Jo. Não é rica. Não tem relacionamentos ideais. Tem uma mãe complicada. Um amigo de verdade. Uma gravidez indesejada. Ela é Jo e ela é real.

Relacionamentos entre mães e filhas nem sempre são perfeitos. Alguns envolvem sensações como abandono, fracasso, tristeza ou até ciúmes. No caso de Jo (Rita Tushingham), ela muitas vezes abandona o papel de filha para orientar a própria mãe, Helen (Dora Bryan). As brigas entre as duas caracterizam ambas as personagens como reais, possíveis. Além de constantes, ocorrem com diálogos bem escritos, instigantes, garantindo o enquadramento do filme no gênero de kitchen sink drama: a narrativa possui conflitos familiares, domésticos, desenvolvidos através de um realismo social, destacando a classe operária.

Apesar dos problemas com a mãe ausente, promíscua e festeira, Jo segue sua vida com uma aparente leveza. A interpretação de Rita também traz um ar de inocência para Jo, que por vezes beira a infantilidade. Isso inclusive é um dos pontos em que Um Gosto de Mel toca constantemente: a necessidade de amadurecer antes da hora, o peso da ausência de bons exemplos dentro de casa no decorrer desse processo, a perda da pureza, os conflitos juvenis. O contraste entre vida infantil e vida adulta é realçado ainda pela presença, ao longo de todo o filme, de crianças brincando em vários locais da área industrial onde Jo vive.

Todos os integrantes da narrativa vivem à margem de uma sociedade ideal, principalmente de uma sociedade ideal da década de 1960. Helen, a mãe, não cuida bem de Jo, bebe, saí muito e acaba se casando numa idade não muito comum para a época. Jo se relaciona com um marinheiro negro – e essa relação por si só podia ser um choque tanto dentro da diegese quanto para o público espectador. Depois da partida do marinheiro, Jo divide sua casa com um amigo que tem tudo em comum com ela, é atencioso, cuidadoso, supre as necessidades de uma figura masculina em sua vida, mas é gay.

Muito acontece na vida de Jo, entretanto no fim das contas nada parece mudar muito, o que mantém o toque de realismo através da falta de muitas perspectivas. Assim Richardson construiu um retrato de uma classe, partindo dos dramas familiares e completando tudo com um toque de choque cultural e escândalos sociais. E o retrato se encaixa perfeitamente no contexto das ruas sujas, dos becos e docas mostrados na fotografia naturalista de Walter Lassally. Um Gosto de Mel pode ser considerado, então, e sem exageros, um dos melhores filmes do cinema britânico.

sábado, 29 de maio de 2010

"Rapadura também é doce, mas não é mel!", por João Roberto Cintra


Mãe e filha que se detestam. Flerte entre uma menina (branca) e um marinheiro (negro). Aberta discussão sobre homossexualidade. Tudo isso em um filme feito há quase 50 anos! Como uma obra com todos esses elementos pode se chamar “Um gosto de mel”?

Dirigido por Tony Richardson, e baseado numa peça de Shelagh Delaney (que co-assina o roteiro), o filme é um primoroso exemplar dos “dramas de pia e cozinha” que retratavam o universo da classe operária inglesa, tema de vários outros filmes dessa época. Em especial o filme traz uma mulher como protagonista (mais uma ousadia), colocando esse universo feminino (tão sagrado em épocas anteriores por donas-de-casa compassivas) mais realista, ordinário – e até cruel.

Jo (Rita Tushingham) é uma adolescente pouco graciosa e até deslocada. Aparece logo no início do filme lavando o rosto, olhando-se no espelho, desajeitada e infantil. Mora só com sua mãe, Helen (Dora Bryan), que não vive exatamente como seu papel social designaria: mãe solteira, chegada a bebida e festas, por vezes promíscua, parece viver a adolescência tardia e não sente responsabilidade pela filha. Em resumo, Helen seria aquela colega de classe de que toda mãe imediatamente mandaria a filha se afastar quando a conhecesse. Ora Jo vive seu momento: como meninas da sua idade, diverte-se na escola e tem seus namoricos – é quando conhece o marinheiro negro (Paul Danquash) – um escândalo que ela parece não se importar – e com ele passa uma noite. Ora ela entra em conflito com a mãe rebelde, numa inversão de papeis. Os diálogos entre as duas são realistas ao ponto de se tornarem cruéis – ou amargas – saídas da boca de uma mãe, cândida figura da cultura cristã ocidental.

Jogada no mundo por Helen (que se casa e não leva a filha consigo), Jo conhece Geoffrey (Murray Melvin), com quem passa a morar – que logo se torna seu heroi, a segurança que nunca conheceu antes. Poderia ser o galã... se não fosse gay. E é surpreendente a aparição de um personagem homossexual nessa época, com tanto destaque e tendo sua sexualidade tratada de forma tão aberta – mesmo que seja para ouvir palavras maldosas da matriarca e seu marido da vez. Verdadeiro salvador de Jo, quem a tira de seu mundo ordinário e põe um pouco de sabor em sua vida, e com a qual se importa de verdade, é posto para fora de casa com o retorno de Helen, após o fracasso de mais um casamento, levando a doçura que Jo e o bebê que esperava poderiam experimentar. Pobre Jo. Involuntariamente grávida, seria mãe sem saber a quem copiar – a não ser a mãe solteira que teve, com quem nunca soube lidar.

Todos os personagens, tão carentes, mas sem saber como agir com o outro, se atraem por essa ânsia de contato, mas se repelem pelo gosto agridoce do sentimento, que só os pequenos gostam sem procurar entender – como uma sobremesa antes do jantar. Talvez isso explique a recorrência de crianças brincando ao longo do filme, além do tema musical infantil usado. Ou mais que isso. Do começo ao fim do filme, mesmo com todas as experiências e turbulência, há um tom infantil na figura de Jô, boca semiaberta, indagando o mundo – como na imagem congelada do menino Doinel, no final de “Os incompreendidos”, de Truffaut. Doinel e Jo. Infância pouco tranqüila e com adolescência interrompida por uma maturidade precoce, desorientada e indesejada. Rapadura também é doce, mas não é mel.

"Doce na boca, amargo nas entranhas", por Luciano Monteiro


Imagine um leve melodrama onde a atriz principal é linda, bem resolvida, tentando vencer na vida e que o único grande obstáculo para sua felicidade é sua mãe, egoísta e de postura infantil. Imagine agora que o melhor amigo dessa protagonista é um jovem belo, másculo e charmoso, capaz de arrancar suspiros de espectadoras juvenis ao redor do mundo. Pode ter certeza que este não é o caso. Em A Taste of Honey (Um Gosto de Mel, de Tony Richardson, 1962) tudo está pelo avesso, para nossa felicidade.


Aqui não temos uma bela atriz interpretando a personagem principal. Os personagens são perdidos, infantis e confusos. A abordagem é realista, dura, desconcertante, amarga refletindo bem o jovem cinema britânico da época. No filme de Richardson o angry young man dá vez ao feminismo e ao homossexualismo dos personagens principais, fato que atesta o porquê que a cultura pop britânica é uma das mais importantes e influentes da época. A obra é fruto de uma época de contestação com um porquê, com um motivo. Beatles, vanguarda, Swinging London, Stones, minissaia, emancipação feminina, juventude. O caldeirão da invasão britânica, impulsionada pela rebeldia própria da adolescência misturada a uma boa dose de boa formação artística das art schools britânicas dos anos cinqüenta, criadas pelo governo britânico para dar aos jovens algo útil para fazer, já que o mesmo governo não conseguira na época reconstruir suas universidades vitimadas pela Segunda Grande Guerra, tudo isso deu o tom e um toque de particularidade da invasão inglesa ocorrida nos anos sessenta, mas que encontra ecos até nos dia de hoje.


A Taste of Honey, que originalmente trata-se de uma peça de teatro, desenrola-se como, na verdade, uma singela fábula infantil e com leves toques do famoso humor britânico. A constante presença de crianças reforça um tom otimista, assim como a infantilidade e inconstância dos personagens. Nas entrelinhas, entretanto, o tom duro e sarcástico dos diálogos dialogam num contraponto perfeito a essa infantilidade. Os personagens são icônicos da nossa época e servem de metáfora a tudo aquilo que os jovens cineastas, como o próprio Richardson, queriam dizer. Jimmy, o amante negro da personagem principal, Helen, já nos mostra o quanto o filme é à frente de sua época e a gravidez solitária também da mesma personagem profetiza a quebra de tabus existentes até o tempo recente. Goeffrey, o doce amigo gay da personagem principal é carismático, doce e, por assim dizer, perfeito, idealizado com o claro intuito de quebrar as barreiras do preconceito. O marido da mãe de Helen é chato, bêbado, preconceituoso. Um curioso, personagem que simboliza o angry old man. Uma música instrumental homônima fora criada para a peça, mas que infelizmente não aparece no filme chegou a ser gravada pelos Beatles, porém Lennon e McCartney adicionaram uma letra, o que nos revela a popularidade da peça e do filme. E mais tarde o próprio McCartney compôs uma música inspirada em uma das canções da peça, Your Mother Should Know. É incontestável, portanto o quando este pequeno grande filme de Richardson é admirado, amado e estimado pela cultura britânica. Um filme que fica cada vez mais jovem com tempo. Mais jovem e mais doce.

"Mel com fel" por Ricardo Duarte



“Um gosto de mel” é um filme que trata de assuntos polêmicos com uma inocência encantadora. Há uma relação inter-racial, um personagem gay, gravidez na adolescência, idéias de aborto e uma análise sobre a necessidade que sentimos de nos ligarmos aos outros, tudo num longa-metragem com diálogos deliciosos e músicas que parecem ter saído de um desenho animado. Essa é a característica mais interessante e bela do filme: emocionar-nos com a ingenuidade de alguns de seus personagens enquanto não ignora o lado duro e difícil da realidade.

Jo, a protagonista, é uma jovem da classe proletária cuja mãe não dá muita importância para ela. Sempre fugindo de um lugar para outro por falta de dinheiro para o pagamento das estadias, as duas têm uma relação bastante hostil, mas o filme nunca condena uma ou a outra por aquilo, embora tenda mais para culpar a mãe, mas vemos outras vezes que ela tenta se aproximar da filha, apenas para ser repelida brutalmente. Não há ali nenhuma chance de reaproximação. É nesse contexto: presa e ansiado por liberdade, como o pássaro na gaiola que sua mãe tem, mas sem coragem de fugir de sua progenitora, que Jo encontra e se apaixona por um marinheiro (símbolo de liberdade). Entretanto, logo após eles fazerem sexo e ele engravidá-la, ele tem que partir. A adolescente não pensa, ou não tem coragem, na possibilidade de ir com ele e, finalmente livrar-se daquela sua vida triste. Logo em seguida é abandonada por sua mãe, que se casa com um homem rude, mas de boa classe social. Aparentemente livre de um fardo, a vida da menina parece bem melhor, ela conseguiu a tão almejada liberdade. Conhece Geoffrey, um homem gay, e após um divertido dia no parque, resolve chamá-lo para morar com ela. Nesse momento vemos que embora Jo afirme que quer ser só, isso não é a verdade. Por mais que aparentasse satisfeita por estar sem Helen, assim que tem a chance de morar com outra pessoa, ela se agarra a isso. E é curioso notar que quando ela chama Geoffrey, eles ganharam um peixe num aquário no parque, fazendo um paralelo com o pássaro engaiolado que a mãe levou embora quando se casou. Após felizes e infelizes momentos passados juntos, os dois são separados pela chegada definitiva de Helen, abandonada pelo marido, que expulsa Geoffrey de lá. Num final doce-amargo, vemos-lhe indo embora, enquanto um menino acende um fogo de artifício para uma reflexiva Jo. Sempre aparecendo sujas, correndo ou metidas em confusões, as crianças do filme servem como um alerta para a protagonista, aumentando ainda mais o seu medo de ser mãe, entretanto, nesse final, é surpreendida pela gentileza de uma delas, que lhe dá algo para ilumina a escuridão, deixando em aberto que talvez seja o filho que terá que fará com que a sua vida melhore.

Tendo sido adaptado de uma peça, o aspecto verborrágico é bastante forte. Os personagens conversam o tempo todo, sobre os mais diversos assuntos e, na maioria das vezes, prosaicos, fato que não prejudica o filme, pelo contrário, fortalece a sua simplicidade e verossimilhança, ao retratar jovens que, comumente a idade, tem arroubos de tristezas seguidos por de extrema alegria e, muitas vezes, de uma arrogância inocente. Há também uma grande dose de sarcasmo e humor em diversas falas presentes ao longo da projeção. Alguns dos diálogos do filme são usados atualmente em letras da banda “The Smiths”, como “I'm not happy and I'm not sad”, ou “The dream is gone, but the baby's real.”. Há também momentos sem diálogos que, usando-se de todo o poder das excelentes atuações, transmitem para os expectadores todos os pensamentos e emoções que passam pelas cabeças daqueles personagens, tendo como exemplo mais obvio e mais significativo, o belo e introspectivo final.

Quase completamente formado de atores não profissionais, as atuações são impecáveis, especialmente as de Rita Tushingham (Jo) e Murray Melvin (Geoffrey), destacando-se ainda o fato do quão difícil deveria ser interpretar um personagem homossexual no início da década de 60. Afastando-se da expansão típica do teatro e focando-se em atuações contidas e realistas, esse aspecto revela-se acertado, aumentando ainda mais a nossa simpatia por aqueles personagens. Claro que, tratando-se de jovens, há alguns excessos necessários para demonstrar a própria vitalidade da juventude, como quando os dois protagonistas, efusivamente, decidem aproveitar o dia de feriado para passearem. Também se deve citar a atriz que interpreta Helen (essa já uma veterana) que convence como uma mãe egocêntrica e fútil, fazendo com que tenhamos uma mistura de raiva, pena e desprezo por ela. Merecidamente essas atuações resultaram em vários prêmios, como o Cannes de melhor ator (Melvin) e melhor atriz (Tushingham), o Bafta de melhor atriz (Tushingham) e o Globo de Ouro de melhor atriz iniciante (Tushingham).

Os cenários do filme e sua fotografia também são algo que merecem atenção. Dando enfoque a composições realistas, a câmera nos leva aos becos, ruas sujas, docas, ruínas e conjuntos habitacionais de uma Inglaterra que muitos cineastas escondiam, revelando-nos os lugares onde uma classe proletária triste e sem grande expectativas de vida passavam seus dias. Usa-se em todas as cenas externas a luz natural, resultando, muitas vezes em um ótimo efeito, como a conversa de Jo e Geoffrey embaixo do arco. Na maior parte do filme o que predomina é a escuridão, que, combinada com os cenários decadentes, aumenta ainda mais a angústia que sentimos por aqueles personagens.

Realizado em 1961 e dirigido por Tony Richardson, “Um gosto de mel” é um filme do movimento não oficial que ficou convencionalmente chamado de “British New Wave”, uma espécie de Nouvelle Vague britânica, sendo um de seus maiores expoentes esse diretor. Embora com poucos filmes, esse movimento é considerado por muitos como um dos mais importantes da cinematografia inglesa, pois foi uma “novidade bem-vinda após o entretenimento conformista (...) da primeira parte dos anos 50” ¹, fazendo com que muitos estudiosos do cinema inglês façam várias pesquisas sobre ele e sobre as inúmeras contribuições dele para o cinema britânico contemporâneo, influência perceptível em filmes como Trainspotting, 9 songs e outros. Vários das características que marcaram a British New Wave estão presentes nesse filme, como ser focado em jovens “rebeldes” e alienados, o enfoque dado a classe proletária, a fotografia sombria, as locações urbanas e decadentes e outros. Porém, há um fato que difere bastante dos outros filmes dos “angry young men”, que é o fato da protagonista ser uma mulher, dando um toque um pouco mais delicado e feminino a um universo de filmes focados em jovens homens violentos, fazendo com que esse filme seja uma espécie única (ou quase) desse movimento.

¹: Peter Hutchings, ‘Beyond the New Wave: Realism in British Cinema’

Material de consulta:

The British New Wave, B.F. Taylor, 2006.

"Um Gosto de Mel/A Taste of Honey (1961)" por Pedro Coelho



Estamos diante de um filme que explora um universo marginal: proletários, mulheres criando seus filhos sozinhas, crianças nas ruas, bêbados, gays, negros, jovens subempregados alugando pequenos apartamentos pelos sujos bairros de cidades industriais inglesas do pós guerra. Dentro deste universo trata-se de temas que ainda hoje são fortes, na época eram verdadeiros tabus para a sociedade: aborto, preconceito racial, homossexualismo.

Dito desta forma, parece ser um filme duro. Mas sua maior qualidade é a forma delicada que este ambiente é tratado. A estória é contada pela ótica de Jo, uma menina sensível criada por uma mãe solteira endurecida pela vida. Ela anda pelas ruas proletárias e zonas portuárias observando aquele mundo decadente de uma maneira tão ingenuamente poética como só um jovem moça poderia transmitir.

Jo sente desde cedo o peso da liberdade individual e das inseguranças de um mundo desprovido de convenções sociais: família e escola nunca havia sido uma realidade para ela. Mas mesmo diante deste ambiente árduo, ela não perde as fantasias e puerilidades. Em vez dela se adequar ao mundo, ela reconstrói o mundo de acordo com sua visão. Jo vai trabalhar, morar sozinha, se apaixona por um marinheiro negro que parte deixando-a grávida, e conhece um gay com quem começa a viver junto. Ela atravessa esses percalços da vida de maneira mais humana possível.

A apropriação que o filme faz da visão de mundo desta moça ingênua porém acostumada com o árduo mundo, permite ao filme esse angulo único. As sensações de Jo diante das paisagens urbanas, das fachadas dos edifícios, das, dos rios, das brincadeiras de crianças nas ruas, dos parques de diversão ao ritmo de Jazz band. Todo universo marginal que citei mais acima é, na verdade, só o pano de fundo para existências profundamente humanas e universais.

Mas não se deve esquecer que A Taste Of Honey é um típico exemplar de kitchen sink drama dirigido por um verdadeiro angry young man. Essa visão poética de vidas periféricas não procura higienizar esse universo. Em um cinema dominado por um visão de mundo exclusiva, mostrar uma outra perspectiva, partindo não dos dilemas da burguesia em relação aquele universo, mas dos dilemas internos que ali operam e mostra-los tão universalmente reconhecíveis é uma maneira muito mais inteligente e sensível de lidar com os conflitos sociais.

"Um Gosto de Mel/A Taste of Honey (1961)" por Bruno Alves


Spoilers a rodo.

Queridos leitores (sim, fingirei que mais de duas pessoas, contando o que vos redige, vão ler isto), vocês já passaram pelo fatídico e triste momento aonde tinham que escrever algo e no entanto não conseguiam? É a minha situação, amigos. Preciso escrever uma resenha de Um Gosto de Mel e no entanto não sai nada do meu pequenino mas esforçado intelecto. Estou com calor, fome e sono. Maldição. Perambulo pelo apartamento nesta quieta madrugada em busca de inspiração. Procuro um biscoito treloso para ingerir e nada encontro. Maldição. Deito no sofá para meditar o texto e acordo duas horas depois sem texto e com a coluna partida em quatro partes. Maldição. Vou ao banheiro lavar o rosto, acordar os sentidos. Me sinto como o protagonista de algum péssimo romance de Stephen King (desculpem o pleonasmo), mais um escritor fracassado sofrendo de um infame writer's block e assombrado por um espelho que insiste em mostrar uma verdade inconveniente: Meu rosto. Maldición.

Se engana o leitor que acha que essa introdução foi apenas para enrolar, enrolar, enrolar e botar o contador de palavras a girar, girar e girar. Não apenas isso, embora o leitor mais atento certamente notou que não havia a mínima necessidade de repetir três vezes os verbos da oração anterior, anterior, anterior. Sua função foi dupla. Também serviu para em minha auto-depreciação costumeira incorporar a personagem principal. Acho que está funcionando...

É bem esquisito, não apenas meu rosto mas esta sensação de se olhar no espelho e achar que há algo de errado com você. Imagine neste triste mundo monocromático que nossa protagonista Jo habita. Com duas bolas de gude (das buchudas) de olho, bocuda e um jeito moleque é uma deslocada natural. Sua mãe é promíscua, canta como se tivesse engolido um galão de hélio e nunca deu bola para nossa protagonista. Estão presas em um ciclo de insultos e tréguas, insultos e tréguas, insultos e tréguas (três vezes?!) que nunca se acaba. De casa em casa, sempre fugindo do fantasma do aluguel, não tem onde criar raízes e adquirir aquela segurança necessária para o crescimento saudável de qualquer pessoa. Sente uma carência natural nunca suprida por ninguém até a aparição supostamente fortuita em sua vida de seu príncipe Ossini (Jimmie para os íntimos), direto de um palácio luxuoso nas savanas de algum misterioso país da África, posando de descascador de batatas de um navio da marinha ele é a primeira fonte de afeto relativamente estável na vida da nossa feinha protagonista. Logo, logo, logo (três denovo?! Preposterous!) uma precoce paixão se forma e em pouco tempo estão trocando juras de amor e promessas de casamento.

Solidão é uma constante na vida de Jo e está prestes a se tornar permanente. Sua mãe, velhinha cheia de aforismos existencialistas, está prestes a se casar com Peter, boêmio com olho de vidro e uma tara por figuras maternas. Édipo ficaria intrigado. Infelizmente o conflito de personalidades entre Peter, o bebum edipiano de mão boba e nossa protagonista com suas pitombas que lhe encaram a alma, tudo chega à um prevísivel impasse... ou ela ou ele. Sua mãe não decepciona as baixas expectativas que já tínhamos dela e escolhe o óbvio ululante para alguém do seu quilate. É uma chance de ouro para recomeçar! Pois vá para o raio que te parta Jo mas antes um dinheirinho pro ônibus querida, quer que eu te acompanhe até o ponto? Grr....

É neste estado que Jo se entrega à Ossini que partirá no dia seguinte. Mas o futuro não importa, Jo só quer se sentir amada, mesmo que à beira de um rio fedorento, num chão seboso embaixo de um céu cinza tom grafite...

Larga a escola e começar a trabalhar numa sapataria, aluga um vasto apê caindo aos pedaços e inicia uma terna amizade com Geoffrey, sua primeira venda bem sucedida e homossexual sem teto. Jo rapidamente lhe chama para compartilhar moradia. Geoffrey é outro bicho esquisito, não apenas pelas características já citadas que não o faz ser o cara mais popular entre as senhoras conservadoras da Inglaterra dos anos cinquenta... e sim pelo valor simbólico do personagem. Ele é o verdadeiro amor que nunca houve na vida de Jo. É o amor incondicional sem nada a exigir, que mesmo pisado e chutado inúmeras vezes pela língua venenosa de Jo e suas alternâncias de humor, nunca desiste de oferecer-lhe o afeto que tanto necessita.

É o verdadeiro gosto de mel na vida miserável de nossa protagonista. Geoffrey é tão bom que chega a cogitar em sacrificar sua sexualidade pelo futuro filho de Jo (spoilers galore!). Caramba Geoffrey, você é o cara. Acho que se cada pessoa no mundo tivesse um Geoffrey só para si (lá ele) não haveriam pessoas tristes no mundo. Mas o retorno de uma velha coroca e a já citada gravidez jogam uma bigorna pesadíssima na bela amizade. Enfim, Um Gosto de Mel se passa no mundo real, onde contos de fadas não existem e nossa protagonista não quer ser mãe, muito menos solteira. Aonde o único herói do filme é expulso de casa e não se impõe à vilã existencialista. Aonde tudo acaba em uma ambiguidade... em uma incerteza angustiante.