Mostrando postagens com marcador realismo social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador realismo social. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de julho de 2010

I’ll come back for the honey, por Ingrid Maiany


Desde a primeira cena de “A Taste of Honey”, sabemos que Jo (Rita Tushingham) é uma espécie de Pollyanna da sétima arte. Inquirida por uma amiga do colégio se irá ao baile, ela diz que não pode ir, porque não possui um vestido e terá que se mudar novamente com a mãe. Mas sua melancolia visível não é duradoura. Em instantes, ela se distrai com uma bolha de sabão que faz nascer de suas mãos envoltas de espuma e abre um sorriso.

O filme inteiro é assim. Tony Richardson está cena após cena deixando um gosto de mel no espectador através de uma personagem de grandes olhos escuros que vão fundo na gente. O longa é, para mim, a dramatização de um trecho de um escritor brasileiro que gosto muito – e que cito sempre – que diz assim: “Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.”

Jo repete isso sete, oito, nove, dez vezes e quantas mais precisarem. Filha de uma mulher pobre e com uma carência enorme de uma presença masculina (Dora Bryan) – de modo que costuma trocar de namorados como quem troca de roupas apenas para não ficar sozinha – Jo desenvolve um humor irônico, sarcástico e, talvez por isso mesmo, encantador. E então entendemos porque o marinheiro negro vivido por Paul Danquah se apaixona pela menina que chega machucada e triste em seu navio. E entendemos porque Jo se apaixona por aquele homem tão diferente dela – em cor e idade – que cuida de seu ferimento como se fora seu pai.

E ambos se entregam a um amor puro, com sexo sob céu estrelado e aliança de ouro. Doçura nos toques, nos sorrisos, nos olhares, nas palavras. Doçura que salva Jo quando sua mãe a abandona para se casar com um homem mais novo. Porque a questão de idades é um tema forte nesse filme de Richardson. Assim como o relacionamento interracial. O diretor faz tudo de forma tão natural que parece nos dizer: “coloquem um torrão de açúcar nessa mesquinhez amarga que é achar que existe bonito e feio, certo e errado, centro e periferia!”. E nós colocamos. Durante todo o filme, repensamos nossos valores, encaramos nossos preconceitos mais velados e concluímos: “como somos umas antas!”

Pois eu estava em minha condição de anta quando a vida veio dilacerar Jo novamente. O marinheiro vai embora com seu navio e deixa a protagonista grávida e sozinha. Mas como é mesmo aquela canção de Bobby Scott e Ric Marlow homônima ao filme? “I will return/ Yes, I will return/ I'll come back/ (he'll come back)/For the honey/ (for the honey)/And you”. Bom, se o marinheiro volta pra Jo como promete, fica em aberto. Ela, contudo, volta para seu mel. E ele vem calçado nos sapatos da moda.

Para se manter, Jo arruma um emprego em uma sapataria. E eis que ela conhece Geoffrey (Murray Melvin). A sintonia entre os dois é imediata, embora o contato seja breve. Mas o destino parece querer da uma mãozinha a mocinha de Richardson. Os dois se reencontram em um desfile cívico e, vendo que o rapaz não tinha para onde ir, Joe a convida a morar com ele.

Nasceria aí uma grande amizade – meio uma relação de mãe e filha. O rapaz, homessexual, cuida da casa enquanto Joe trabalha. Ele é o amparo, o carinho que ela nunca sentiu na personagem de Dora Bryan. E o relacionamento dos dois é a coisa mais bonita do filme – que é lindo em totalidade. A cena da gruta, um novo carpe diem, nos faz refletir sobre a efemeridade, sentimos uma nostalgia do próprio presente e chegamos mesmo a nos questionar “será que é mesmo possível transformar todo limão em limonada?”.

O fato é que Tony Richardson é, na verdade, um romântico. Por trás das questões sociais que aborda, dos bairros proletários com crianças correndo, da mãe ausente, do filho sem pai e da amizade que se aparta, ele quer nos mostrar que a vida sempre pode melhorar – e não o contrário. E nisso o final do filme é antológico.

Desiludida pela ausência do amigo querido, Jo observa os garotos que festejam ao redor de uma fogueira, quando uma menina lhe oferece uma estrelinha. Com aquelas faisquinhas saltitantes nas mãos, a protagonista é “A Pequena Vendedora de Fósforos”, aquecida com a chama da estrelinha na solidão da noite. O plano fecha no fogo de artifício. Luz no fim do túnel? É, Richardson, acho que nem o Ursinho Pooh (que nos meus tempos de criança era Puff) gosta tanto de mel.

domingo, 4 de julho de 2010

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 3)


– A Kind of Loving de John Schlesinger (62)

O filme começa com um casamento, mas não o do protagonista Vic. Embora as agruras da vida conjugal sejam o tema principal do filme e si o casamento de sua irmã. Um casamento que simboliza a felicidade idealizada daquele ambiente. Um casamento repleto de gente feia (é o que mais tem nestes filmes, me sinto em casa assistindo-os) de vocabulário extremamente limitado que não cansam de comentar, ou melhor, reafirmar trivialidades. É um casamento com um tom extremamente kistch mas com um ar de felicidade contagiante que é ambicionado por nosso protagonista. Ele, para um protagonista que vive na pia de cozinha, até que é extremamente confortável com suas origens. Não existe nele o desejo de ultrapassar os desígnios destinados em seu nascimento e sim a vontade conformante de quem só procura tirar o melhor daquilo tudo.

Vic está de olho em uma jovem e logo, com o uso de artifícios ingênuos, consegue chamar sua atenção. Ele sabe que existe algo de muito errado na relação, afinal perto da sua namorada alterna entre o desejo e o repúdio. O que ele repudia é a personalidade vazia e consumista que ela exibe e o que deseja é o sexo posto como seu objetivo supremo. Até que para uma inglesa ela é passável, nota 6,5. Enfim, Vic trabalha na relação por motivos puramente egoístas e físicos. O envolvimento emocional é nulo.

Mas ela engravida. Vic preso nas fantasias de um casamento como o da sua irmã e escravo das vontades impostas pela sociedade decide seguir o caminho moralmente correto e a pede em casamento. Ela chora, ele lamenta, ambos sabem que é um casamento fadado ao insucesso, mas tem que fazê-lo. Uma breve lua de mel com uma sugestão honrosa à ignorância sexual que estava sempre presente na sociedade britânica e o retorno à terra. Vic vai morar com sua esposa na casa da sogra, velha enjoada que o despreza, enfim, uma sogra.

Algo interessante neste momento do filme é que com uma certa boa vontade de cinéfilo fantasistas é possível encará-lo até como uma continuação de A Room at the Top. Os obstáculos que Vic enfrenta, como a sensação de ser um estrangeiro em sua própria casa e o conflito de personalidades entre ele, pobretão confortável em sua origem e elas, burguesas hipnotizadas pela televisão e que buscam felicidade através do materialismo que ele não tem condições de proporcionar.

No clímax do filme, frustrado pelo casamento infeliz e pelo aborto da esposa, Vic revira a cidade num oferecimento de sua alma à Baco retornando completamente mamado pra casa (pois se tem uma coisa que bêbado não esquece é o caminho pra casa... e o mé. Momento propício para uma piada com fins de alongar este documento: Mussum chega no barman e pergunta: - Tem leite de cabra suíça? - Não. - Tem leite de vaca holandesa? - Não. - Então tem leite de ovelha escocesa? - Também não. - DEUS SABE QUE EU TENTEI! ME PASSA UMA PINGA!) proporcionando um autêntico barraco com muita choradeira, muito vômito e muita sogra evidentemente.

Após muita patada de todos os lados em vez de se divorciar mais uma vez Vic se dobra aos desejos da sociedade. Vai fazer funcionar embora seja MUITO óbvio que deste casamento não vá sair nada. Mas tem seu momento de epifania ao concluir que se mudando com a esposa pra uma moradia qualquer nota e tudo fracassar ao menos eles saberão a quem culpar e o que deu de errado.

Ps: O maior terror de um homem é uma sogra de nome Esperança.

"Meu nome é Joe", de Ken Loach, por Débora Freitas Baía


Joe Kavanagh é um ex- alcoólico, que freqüenta o A.A., desempregado e residente da periferia de Glasgow. Ele é treinador do time local, e faz diversos “bicos” para sobreviver. My name is Joe é a frase que abre o filme, mostrando o relato do personagem numa das reuniões dos alcoólicos anônimos. Sarah é assistente social e numa de suas visitas a uma família (Liam e Sabine) do bairro, conhece Joe. Liam e Sabine são ex/usuários de drogas, viciados em heroína, o que fez Liam contraiu grande dívida, mas foi perdoado. Sua esposa, no entanto, não abandona o vício, e faz outra grande dívida, fazendo com que os traficantes ameacem quebrar suas pernas ou colocar sua mulher para se prostituir caso não pague a dívida. Liam é jogador do time de Joe. As histórias se entrelaçam no mesmo bairro.

A periferia da cidade de Glasgow é uma das mais pobres da Escócia e do Reino Unido, por isso mesmo sofre menos os processos de globalização e multiculturalismo que assola os outros países; ela amarga o desemprego estrutural e os índices de violência e vício em drogas, além de doenças de toda a espécie, problemas de saúde típicos de países mais pobres. Esse isolamento, junto ao uso de dialetos que os diferem dos demais bretões, os colocam numa posição anti-inglesa e anti-não europeus.

Esse filme mostra o sentimento de comunidade entre os viventes do mesmo bairro. Apaga-se a noção de identidade nacional a partir do momento em que não há grandes referências locais, apenas o senso de comunidade do bairro, naquela instância fragmentada do bairro. A coisa que promove essa cor local mais aproximada é o futebol. Quando Joe chama seu time de família e toma pra si os problemas de um de seus jogadores, como um pai. As vivências desse bairro também propõem uma reflexão sobre a situação escocesa, pois o país é o mais pobre do Reino Unido e mais acometido de violência e vícios de uma forma geral. A “comunidade global” fica a cargo da anulação das especificidades locais, e mesmo sabendo que o sotaque marca o território, pobreza é um problema global, não resolvido pela globalização, talvez resultado dela, em certa medida.

São personagens aleatórios, perdidos na falta de dinheiro e desemprego, fumantes assíduos e usuários de drogas, com seus próprios líderes locais, eleitos pela força, representado pelos traficantes de drogas. O futebol surge como símbolo de unidade e de amenização das diferenças, solo neutro de divergências saudáveis, a válvula de escape. O cotidiano é marcado com sucessão de cigarros e dramas. Quando Joe assume a dívida de Liam e é encarregado de fazer as entregas para o traficante local, não pensa nas drogas em si, ou seja, como um incentivo ao ciclo vicioso do qual seu amigo foi vítima, pensa apenas em salvar a vida dele. Quando Sarah apresenta esse conflito a partir de suas experiências com as conseqüências das drogas, ele anula seu individualismo para retomar o sentido de cidadania. Uma vez cancelado o trato, não há salvação para Liam, ele comete suicídio. Loach coloca no nascimento do filho de Joe o renascimento do mesmo, e a esperança de renovação.

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 2)


Odeio essa mulher (Look Back in Anger) de Tony Richardson (59)

O realismo social tomaria a Inglaterra à partir desta obra de Tony Richardson baseada na seminal peça do mesmo nome de um dos precursores dos jovens irados, John Osbourne.

Se em Room at the Top presenciamos um Joe contido em suas maneiras e focado em um único objetivo, aqui podemos ver o que aconteceria com ele se abdicasse (ou sequer tentasse) de sua ascensão por um casamento. O protagonista aqui é Jimmy. Casado com Allison uma mulher que veio da classe média, vivendo em um apartamento minúsculo, vendendo doces durante as manhãs na feira local e tocando jazz nos bares à noite parece ter sua alma tomada por uma raiva infinita. Sua esposa é constantemente vítima de suas acusações e intempéries despejadas eloquentemente segundo após segundo. Quando esta esconde uma gravidez e traz para casa uma amiga que ele odeia, Helena, o vemos inebriado pelo próprio veneno que injeta através de monólogos cruéis. A sua revolta que inicialmente parecia não ter motivos aparentes advém deste elemento vital do movimento, a insatisfação.

Insatisfação de uma vida repleta de perdas, de oportunidades negadas mas que no entanto lhe permitiu ter a educação necessária para compreender o quanto perdia em cada uma das batalhas. Casou-se com uma mulher que aparentemente ama, embora o espectador possa indagar com completa razão se aquele relacionamento não se sustenta apenas graças à luxúria, que no entanto crê que não o conhece verdadeiramente. É britânica mas sua classe diferente a faz filha de uma cultura completamente diferente.

Tem um único relacionamento satisfatório e saudável: Sua amizade com um imigrante irlandês chamado Cliff que se esforça em manter a paz no casamento do amigo. De temperamento ameno e satisfeito com a vida como ela é parece ser seu completo oposto. Mas a raiva sem limites e muitas vezes inexplicável acaba afastando Allison de si e consequentemente Cliff. O que não parece ser um problema já que ela é prontamente substituída por Helena, repetindo tintim por tintim o que mantinha seu relacionamento anterior funcionando. Helena se demonstra enojada por Jimmy durante boa parte do filme, no entanto basta apenas um avanço para ela ceder. É mais um (para Jimmy) relacionamento calcado em apenas atração sexual que ignora amizades e o bom senso.

No fim Allison perde o bebê. Helena e Cliff vão embora e o casal original se vê reunido mais uma vez em uma estação de trem, com um enquadramento com alusões de romantismo. Mas um romantismo que nasce de um desastre que rebaixa Allison ao nível de Jimmy. Ao afirmar que sabe finalmente o que é a perda de um ente querido ela lhe comunica que enfim eles são iguais. Isso permite-os um reconciliamento e o beijo entre as sombras e fumaças (eita país fumaçento). Mas não é um final feliz. Ambos perderam amizades importantes e entes queridos. Ambos terminam a história mais infelizes que começaram. E sem Cliff e sua função apaziguadora que conseguia manter aquela relação funcionando é um casamento que ainda tem tudo para fracassar.

Das ruas à pia da cozinha - Realismo social no cinema britânico de 1958 à 1962, por Bruno Alves (parte 1)


Room at the Top de Jack Clayton (58 ou 59 há controvérsias)

Room at the top pode ser classificado como um filme transicional. Enquanto a história de Joe Lampton e seu desejo de subir na vida à todos os custos exibe elementos que seriam reconhecidos nos futuros filmes do movimento ele ainda se atém à caracteristicas típicas do cinema tradicional britânico dos anos 50.

Joe é um contador atormentado pela divisão social que assola a sociedade britânica. Crescido nos cubículos típicos das comunidades pobres britânicas à todo momento lhe são lembradas as diferenças inerentes relativas aos diferentes berços da vida. Nele existe um desejo de ascensão social que pensa em concretizar através de dois atalhos, duas mulheres distintas. Em uma, mais velha e casada, encontra a compreensão e o amor que lhe ajudam a atravessar o dia a dia. Na outra, jovem herdeira inocente, vê as possibilidades de um futuro bem sucedido aonde suas vitórias não são determinadas pela capacidade financeira de sua família. Determinado em seu objetivo seduz ambas com consequências desastrosas.

Seu verdadeiro amor é Alice, que vive em um casamento destruído pelas constantes escapadas amorosas de seu marido. Alice é uma mulher de personalidade que se vê conquistada pelos avanços de Joe durante momentos de fragilidades. Entre eles nasce um amor verdadeiro empatado pelos segredos inerentes à um caso e dos desejos sociais de Joe. Eles pensam em fugir mas a realidade é avassaladora e a ambição de Joe por demais desmedida. Ambos decidem sacrificar suas vidas por causas diferentes; Joe, finalmente encarando a possibilidade concreta do golpe no baú que tanto planejara decide sacrificar uma vida de dificuldades mas feliz pelos encantos do dinheiro. Alice se vê perdida em uma prisão construída meticulosamente pelo seus ex-marido que se recusa a deixá-la. Seu único suporte emocional lhe deixa e assim também sua vontade de viver. A liberdade e a felicidade que tanto ambicionara nunca lhe chegariam. Joga a sua vida fora para a surpresa de um Joe abasbacado com as próprias escolhas erradas que seu sonho o levou a cometer. O filme termina com um casamento, um emergente e uma herdeira rumando à uma aparente vida de felicidade conjugal. Mas os últimos momentos dos filmes nos permitem enxergar um Joe desmascarado pela sua própria culpa, aonde seus olhos no contam tudo.

O protagonista poderia ser considerado um protótipo dos que viriam a seguir. Sua classe baixa não é sinônimo de ignorância e permitem-lhe enxergar o mundo como o é, uma sangrenta luta de classes. Sua reação é mais fria e sistemática que seus herdeiros. Só permite-se expressar-se de verdade em companhia de Alice. Ou não. Em uma cena o vemos gritando com ela “I'm working class and proud of it”. O que poderia soar como um moto deste movimento cinematográfico pela voz de Joe soa como uma desilusão. Nem ele mesmo acredita em si, senão não tentaria tanto escapar de suas condições que supostamente tanto se orgulha. Enquanto veremos nas outras obras os protagonistas agirem de maneira desesperada e emocional, Joe se esforça em manter-se controlado de toda a forma, mantendo a maquiagem de bom moço necessária ao seu enriquecimento.

sábado, 3 de julho de 2010

“Me used to be angry young man…” ?, por Marina Paula



Pompa. Polidez. Disciplina. Reverência. São estas algumas das palavras que nossos conhecimentos sobre certas figuras e produtos ingleses nos fazem mais facilmente vincular aos costumes daquele país. No entanto, não é preciso ir muito longe para encontrar uma quebra com este sentimento de nação imaculada e hegemônica. É exatamente o que se vê quando um cineasta decide confrontar, usando imagens de uma tonalidade realista, o peso da tradição e da rigidez com a força de uma juventude contestadora, que começava, cada vez mais, a ganhar voz e corpo ao redor do mundo; É o que faz A solidão da corrida sem fim, filme de 1963, dirigido por um dos pioneiros da “nova onda” britânica.

Se o formato de uma leva de filmes de caráter inquestionavelmente institucionais ganhara seu lugar nos pátios e salas de aula das escolas inglesas, o filme de Tony Richardson não vai se utilizar de um espaço muito diferente para questionar os mesmos valores da moral britânica outrora festejados em cenários como o de Adeus, Mr. Chips (1939). Para tanto, em vez do colégio interno, o cenário é deslocado para uma casa de ressocialização, onde o papel dos alunos é ocupado por uma horda de jovens irados, vindos, em sua esmagadora maioria, da classe operária e que por necessidade ou rebeldia (que no filme, parecem até indissociáveis) acabaram se envolvendo com a criminalidade.

No reformatório Ruxton Towers, o foco está sobre Colin Smith (Tom Courtenay), o mais velho de uma família inglesa de quatro filhos, preso por roubar uma padaria. Apesar de assumir uma postura subversiva, a figura de Colin não invoca ares de total irresponsabilidade, como poderia parecer. Ao contrário, suas ações parecem sempre extremamente conscientes e jamais são questionadas por qualquer tipo de arrependimento ou “moral cristã”. O personagem assume a postura de quem tem o direito, quase o dever, de praticar tais ações – uma espécie de Robin Hood moderno – na própria cidade de Nottingham, berço da lenda –, mas sem a parte da distribuição dos bens ao fim (o que poderia até ser justificável se usássemos como argumento que ele mesmo é um necessitado).

Assistimos, então, a chegada de Colin ao reformatório e o seu processo de adaptação naquele ambiente. Após os primeiros encontrões com a direção, ele começa a aceitar e a se envolver cada vez mais no cotidiano da prisão. A habilidade para o roubo, segundo o próprio personagem, já era havia muito repassada de pai para filho, sendo o costume de correr da polícia o que mais tarde viria lhe possibilitar uma chance de mudar de vida. É através de uma narrativa não-linear que vamos conhecendo a sua vida anterior.

Mesmo após a morte do pai, quando teoricamente deveria assumir o posto de chefe da família, Colin recusa-se a procurar um emprego por não aceitar desperdiçar o seu suor apenas para a prosperidade dos patrões.

Exatamente por essa insubordinação e fortes tendências comunistas não só do protagonista, mas do discurso do filme em sua totalidade, ele recebe o subtítulo “Rebel with a cause”, indo propositalmente de encontro ao título original do clássico americano, Juventude Transviada (Rebel without a cause, 1955), transformando-o assim, em um exímio representante do que de melhor a postura de seu protagonista, um autêntico “angry young man” poderia nos oferecer, um culto à rebeldia.

"Minha Adorável Lavanderia", por Juliana Ribeiro


Minha Adorável Lavanderia é um filme surpreendente, desde o inicio pela falta de protagonismo de Omar Ali, até o final brusco, apesar de o filme ter sim, terminado no tempo ideal. O filme de Stephen Frears conta a história de Omar, de família paquistanesa, cujo tio um empresário engajado, o contrata inicialmente para lavar carros. Omar nos primeiros momentos do filme mal aparece, de vez em quando balança a cabeça, e raramente abre a boca pra expressar qualquer ato de esperteza. Engana-se o espectador, mas logo se entende pelas ações dele, que ele não passa de um aproveitador, além de um boca grande (não fecha a boca nem antes de apanhar). Logo, Omar passa de limpador de carros à gerente de uma lavanderia, e com dinheiro sujo e a ajuda do melhor amigo Johny consegue modernizar o local, que fica mais parecendo uma boate.

O filme de certa forma contrapõe o trabalho duro com o dinheiro fácil: o pai de Omar não quer que o filho se envolva nos negócios do tio, pois sabe como sãos seus negócios. Ao mesmo tempo não expõe ingleses ou paquistaneses como partes separadas, dos dois lados há honestos e desonestos (mais desonestos do lado da Inglaterra, e mais ricos do lado do Paquistão), dando ao filme um ar punk da Inglaterra como um todo. As luzes, o neon e a música pop da época ajudam a compor o cenário que nada negam um estilo bem anos 80 de ver a vida. O ambiente da lavanderia é tão bem feito que é quase possível sentir o cheiro de sabão. O som das bolhas no início e no final do filme são muito interessantes por que ao mesmo tempo que fecham um período de tempo, não fecham uma ação, e o final fica um meio que “acabou?” preso na garganta, o que não é ruim de fato.

O relacionamento homossexual de Omar e Johny é sem dúvida o ápice. Os olhares picantes sempre trocados deixam uma dúvida no ar, até o ponto do primeiro beijo entre os dois, que aí não tem mais dúvida nenhuma. O relacionamento dos dois sempre em altos e baixos, por conta da ganância, Johny é trapaceiro de nascença, e

Omar na tentativa de fazer parte desse mundo através da nova lavanderia às vezes deixa para trás esse relacionamento, que parece mais em função do interesse. Além de tudo a comédia é divertidíssima. A cena de Omar com sua cara de sonso ouvindo seu e tio e sua amante fazerem sexo é impagável. E é claro essa resenha termina como o filme assim: cri, cri, cri

"Minha Adorável Lavanderia", por Ruana Pedrosa


Ano passado tive o privilégio de conhecer O Medo Devora a Alma do diretor alemão Fassbinder. Um filme que descreve preconceitos enfrentados por um imigrante na Europa e com seu relacionamento com uma mulher mais velha. Lembrei desse filme quando parei para assistir Minha Adorável Lavanderia de Stephen Frears.

O título parece ridículo, o barulho de bolha de sabão estourando, no início e fim da película é cômico, mas o resultado é muito bom.

Omar (Gordon Warnecke), rapaz de origem paquistanesa, convive com o preconceito dos dois lados da sociedade. Os ingleses não o respeitam por ele ser imigrante, e sua família por ele ser “quase” inglês. O ambicioso rapaz encontra na lavanderia falida do tio a chance de crescer financeiramente no mundo britânico. Nela também seu amigo de infância Johnny (Daniel Day- Lewis) busca mudar a vida. O inglês é um ex punk fascista, que começa a sofrer preconceitos por parte dos seus antigos amigos que não aceitam sua amizade com Omar. E para complicar ainda mais as relações em sociedade, os rapazes se envolvem amorosamente.

Porém este não é o ponto chave do filme, pois em nenhum momento os outros personagens descobrem a paixão dos protagonistas. É realmente a ambição de Omar e a xenofobia dos dois povos que chama atenção.

Como roteiro inteligente, que chegou a ser indicado ao Oscar no ano de 1986, de Hanif Kureishi, expõe o determinismo em todos os grupos do filme. Em certa cena, por exemplo, um punk fala que os imigrantes vieram para trabalhar para os ingleses e que não poderiam fugir desta realidade.

O filme que vive os anos 80 de maneira completa. Na forma como é filmado, nos figurinos, na trilha musical, nos penteados e no modo de viver, sendo outra obra que relata o problema de minorias.

Destacando a interpretação do casal protagonista. Johnny é o típico marginal apaixonante, chegando a roubar a atenção de Tânia (Rita Wolf), prima de Omar.

Minha Adorável Lavanderia é a maior prova contra o próprio determinismo imposto no início do filme. Omar, bom moço, torna-se ganancioso, não se importando com a as pessoas ao seu redor. Johnny, bagunceiro, com um passado negro, chega a extremos para defender e viver seu amor. Assim a película consolida que não existem pessoas boas ou más, existem pessoas.

Drama e comédia em Mike Leigh, por Thiago Rocha Ferreira




Um grande diretor autoral é reconhecido pelos seus espectadores como alguém que produz filmes na mesma linha, sobre o mesmo tema. No caso de Mike Leigh, há um certo pessimismo que ronda seus filmes, mas que é trabalhado de maneiras diferentes como Naked de 1993 e Simplesmente Feliz de 2008.

Esses filmes trazem um caso curioso de um personagem que aparece mais jovem num filme e reaparece mais velho em outro. É o caso de Johnny (David Thewlis) que faz uma vagabundo solitário e perturbado e que fala constantemente em fim do mundo e em 666, o numero da besta. Esse mesmo discurso reaparece com Scott (Eddie Marsan), um excêntrico instrutor de auto-escola cheio de neuroses. A real diferença entre os dois está na abordagem dos respectivos filmes.

No primeiro, o tom é sombrio: a coloração do filme é azul, as ruas de Londres são sujas, repletas de personagens de rua, usam-se roupas pretas. Situações de violência, principalmente sexual, são exploradas de forma crua, às vezes com o recurso da câmera na mão. Em meio a isso surge uma amizade entre Johnny e um porteiro de um edifício. Conversando, descobre-se que são pessoas com visão de mundo e vidas bem diferentes. O porteiro adota uma posição mais conservadora, aceita seu destino. Johnny prefere uma atitude mais cínica e niilista. A frieza da sua conversa sobre a proximidade do fim do mundo soa não só dramática como apocalíptica. No outro, tudo muda. Aqui ele se vale de uma espécie de humor sarcástico tipicamente inglês, tratando do amargo com tons mais adocicados. Podemos ver essa abordagem em outros filmes britânicos como Um Gosto de Mel (1961) de Tony Richardson. As cores são vivas, o sol é constante, o clima é alegre, divertido. Mas esse mundo reflete o ponto de vista da personagem principal do filme, Poppy (Sally Hawkins), a forma com ela vê as coisas. Scott, contratado pela protagonista para aprender a dirigir, aparece como o seu maior contraponto. Mas um contraponto que de tão mal humorado e nuvioso, soa bem engraçado. Já Poppy, de tão simpática e alegre que chega a ser irritante.

São quinze anos que separam os dois filmes, mas se Leigh insiste nessa personagem é porque é realmente significante para ele. Mas o que fica é a admirável capacidade de velar o discurso, transitando em diferentes estilos.