
Esqueçam os filmes de aliens, naves espaciais, foguetes, ringues ou aventuras adolescentes típicos dos anos oitenta. “Afogando em números” (1988), assim como toda obra de Peter Greenaway é uma desconstrução do que estamos acostumados a ver enquanto cinema e enquanto arte. Greenaway é um artista (ponto). Multi-mídia, polimorfo e polissêmico. Não é apenas um pintor, um interventor ou um cineasta, assim como não é apenas a junção disso. Sua formação como pintor delineia seu ‘ser cineasta’, claro, mas o mais importante é sua visão sobre a imagem em si, seja qual for sua forma. É a imagem, por ser narrativa, que deve reger a estrutura narrativa do filme. Anos antes de rodar um filme, ele começa a desenhá-lo, a pintá-lo e já nesses rascunhos, o ritmo do filme está marcado e toda sua estrutura e composição. E é assim que acontece em Afogando em números.
Greenaway nos introduz ao mundo dos números logo nas primeiras falas do filme, quando a garota que conta estrelas, Elsie, diz: “Cem é o suficiente. Depois de cem tudo se repete”. Entre o caminho do nonsense e do absurdo, o diretor cria um mundo bizarro e esquisito, com suas próprias regras, que tornam possível a evolução da história, mesmo que para ele a história possa perder espaço para a imagem. O marco da repetição é feito por três gerações de mulheres (Joan Plowright, Juliet Stevenson e Joely Richardson), com o mesmo nome, que afogam seus maridos. As Cissie Colpitts usam o interesse do legista Madgett (Bernard Hill) para encobrir as mortes. As Cissies simplesmente se cansam de seus maridos. Os motivos parecem banais e nada é suficiente para não fazê-lo. Engraçado é que logo após os afogamentos, as três são acometidas por uma melancolia, o que chega mais perto da culpa.
O estranho humor de Greenaway não fica por aí. Os encontros daqueles que não acreditam nas três mulheres se realizam na ‘torre de água’; Madgett é rejeitado por cada uma das três Cissies na mesma situação; a garota que sempre pulava corda na calçada, quando resolve pular na rua, é atropelada; além de vários comentários ácidos e de humor negro dos personagens.
Madgett, o legista, concorda em ajudar a primeira Cissie (a mãe) por ter interesse nela, mas ao decorrer do filme, se vê enrolado nas armadilhas das mulheres, e que elas, no fundo, são apenas uma. As três são unidas de tal forma que são as várias faces e fases de uma grande Cissie. A força delas anula sua expressão de vida, fazendo dele quase um fantoche. Mas não é só nelas que se apresenta a força do poder feminino (característica de Greenaway); Eslie, a menina que pulava cordas e contava estrelas, pergunta a Smut (filho de Madgett) se ele é circuncidado. Ele não consegue tirar essa idéia da cabeça, até que ele mesmo se opera, em paixão por Eslie.
Alguns dos frames do filme parecem quadros e falam por si mesmo. As frutas na cena da banheira, as mariposas sobre o pano de Smut, a mesa posta do café da manhã de Madgett, fazem total referência a quadros do tipo ‘natureza morta’. É um filme muito escuro, com cores bem delimitadas e fortes, como se saídas de uma tela. A luz é muito bem direcionada nesse sentido, dando vida apenas ao que interessa ser ‘pintado’ na história. A semelhança das cenas da menina que pula cordas com o quadro As meninas de Velásquez é incrível. As fotografias tiradas por Smut são de uma beleza tal que parecem quadros de arte. A fotografia da sequência final do filme é perfeitamente trabalhada. Isso tudo decorre da sua preocupação com a composição da imagem e também de sua formação. O cinema de Greenaway é um prato cheio para estudiosos e apreciadores de uma boa imagem. Seu trabalho de direção de arte é incrivelmente rico.
Smut é um personagem chave na história. No contexto, é um garoto apático, presencia as confissões das Cissies e não comenta nada com ninguém. Está sempre interessado nos jogos que inventa com seu pai ou em contar (mortes, abelhas, folhas, pelos). Ele talvez seja o principal responsável por nos dar a sensação de estarmos sendo afogado em números. Ele, sua mania de contar junto com o os números (de 1 a 100) que aparecem no filme, a maioria em imagem, mas alguns ditos pelos personagens, a garota que conta estrelas, a repetição das mortes, juntamente com grande quantidade de fogos de artifício e as inúmeras regras e jogos nos prendem ao filme, como uma pedra amarrada em nossos pés, nos levando para o fundo da mente de Peter Greenaway.
A repetição das mortes talvez não funcione exatamente mera repetição, mas como parte de um ciclo, de um processo de libertação das Cissies Colpitts. O fato delas se livrarem do legista é o número 100 da história.
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